“a revolução não é o porre. a revolução está na ressaca do dia seguinte.” – ou carta à dilma roussef

por laura colpa.

“é certo camarada dilma, que somos companheiras de várias trincheiras. é certo que você, bem mais militante que eu.

é certo que sou jovem e à minha jovialidade cabe muito o ato de criticar. as dimensões de mundo que tenho, são outras, ainda estou “subindo a serra” como dizem.

eu sou a jovem militante que aponto os problemas do governismo, do fisiologismo, das muitas entradas erradas do seu partido. ao mesmo tempo, dilma, eu sei bem que impeachment não é saída para crise. sei bem que muito necessário se fez as muitas ações sociais que diferem seu governo do governo fhc por exemplo. com muitas críticas, mas ainda assim vejo as propostas sociais como trampolim para um brasil minimamente mais justo.

e é certo sobretudo, que só de pensar nisso, os grandiosos enlouquecem.

pra que nunca se esqueça: golpe. não existe outra palavra que sugira, nem de longe, o que acontece no ano de 2016 nessa jovem democracia tupiniquim. eu viví para ver o estado democrático de direito sucumbir aos pés de uma grandiosa mulher. altiva e forte. a mesma fortaleza e energia que a rodeava lá atrás em seu julgamento na ditadura.

que exemplo de resistência temos no brasil. quem aguentaria tudo isso?

sabe dilma, uma vez minha mãe leu uma história pra mim e lá estava escrito que as sacerdotizas eram tão poderosas, que em momentos de decisão, elas podiam crescer até 15 centímetros e se posicionarem magníficas, matriarcas, donas de toda a energia do ambiente. olhe bem pra você, olhe bem pra tudo o que nós, mulheres, podemos ser após o seu mandato. todas as relações se alteram porque uma senhora ousou ser presidenta. e isso incomoda, é perturbador vê-la no poder.

dilma, eu quero te contar que sou ainda muito pouco, mas só sou porquê tu és.

e se minha filha tiver sonhos, sonhos serão grandes porque teus passos foram grandiosos e ousados.

você é grande e nem aqui cabe. nessa terra de coronéis, de compadres, de objetificação da mulher. nós somos pequenos demais para o seu tamanho. nós, que ainda precisamos nos impor ao mundo forjando uma família perfeita que contenha: um senhor inescrupuloso, uma esposa silenciada e infantilizada e uma criança exposta ao sair da escola – para forjar-nos a família ideal. olhe bem para nós. veja se te cabe aqui?

não.

certamente te devemos desculpas, por estarmos ainda tão aquém do seu tamanho, querida dilma.

ontem tomamos uma porrada, a acusação usou argumentos que mais pareciam a santa inquisição. inquisição que queimava mulheres livres. o brasil não estava preparado para uma mulher livre. e todas as vezes que nos colocamos livres, somos loucas, histéricas, desequilibradas, estamos nervosas. eu sei bem.

hoje é o dia seguinte, dilma. é certo que a revolução não veio. não estamos nem perto de sermos o país socialista que brandavam os opositores. somos pequenos demais para isso. sequer conseguimos segurar a democracia. hoje ela foge entre os dedos infantis.

o brasil acorda órfão. da janela olho e ouço: choveu em bh toda a noite. o céu lava as ruas e o dia amanhece. alguns caminham cabisbaixos, outros sequer compreenderam o que se passa.

mas você segue abrindo caminhos. você segue, e nós ficaremos. nós e nossos muitos coronéis, com nossos direitos comprometidos, com nossos corações rasgados, com nossa ressaca dolorida. ao menos você segue! siga e seja.

por nós! “pelo justo, pelo bom, pelo melhor do mundo”

obrigada, dilma roussef.

 

fonte: http://negrobelchior.cartacapital.com.br/revolucao-nao-e-o-porre-revolucao-esta-na-ressaca-do-dia-seguinte-ou-carta-dilma-roussef/ 


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