abril indígena

“sou pataxó / sou xavante e cariri / ianonami, sou tupi / guarani, sou carajá / sou pancaruru / carijó, tupinajé / potiguar, sou caeté / ful-ni-ô, tupinambá”. e um longo, enorme, resistente e combativo etcétera. porque há saberes, há mundos inteiros sendo assassinados todos os dias. porque demarcação é urgente, porque a vida destes povos (que são nossas vidas também) contam e contam muito. porque, como diz carelli em martírio, filme que estreia nestes dias, “é no trato com os índios que o brasil se revela” (leia aqui a entrevista completa na carta capital)
e vale sempre lembrar: nos enterraram, mas se esqueceram de que somos semente. ou, nas palavras-lágrimas mbya guarani que você ouve em martírio: “na terra em que você caiu, um dia ainda seremos felizes.”

 

clique abaixo para ouvir o programa pelo computador:

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confira as canções e xs artistas desta edição:

 

chegança – antonio nóbrega cd madeira que cupim não rói
brasileiro nascido em recife, antônio nóbrega começou a tocar violino na juventude e participou da orquestra de câmara da paraíba, da orquestra sinfônica do recife e foi convidado por ariano suassuna para fazer parte do quinteto armorial, grupo que iniciou a criação de música de câmara brasileira de raízes populares. composta em parceria com wilson freire, compositor, poeta e médico, “chegança” é um folguedo nacional presente no cd madeira que cupim não rói, de 1997, e faz referência ao que ocorreu com vários povos antes da chegada dos colonizadores.

 

tso ere poma – dardete karitiana cd canções do brasil
interpretada por dardete karitiana, tso ere poma é um canto tradicional da nação karitiana que fica em rondônia, brasil. de acordo com o encarte do disco canções do brasil (2001), onde está presente a referida canção, “tso ere poma” é a observação de uma criança karitiana onde afirma “eu vou te pegar” numa caçada em que volta para casa trazendo no seu cesto um tatu para brincar.

 

uy poma, uy poma i ay ta ka´ay un mi´ay i ay ta ka´ay un mi´ay
buh uy, buh uy i ay ta ka´ay un mi´ay i ay ta ka´ay un mi´ay
ti ka´au tso ere uy poma i ay ta ka´ay un mi´ay i ay ta ka´ay un mi´ay
uy poma, uy poma i ay ta ka´ay un mi´ay i ay ta ka´ay un mi´ay
vou brincar, vou brincar vou pegar,
pegar vamos longe vou pegar,
pegar tatu vai brincar comigo vou pegar, pegar

 

árvore da vida – poema de marcia wayna kambeba em sua própria voz
márcia wayna kambeba é uma geógrafa e poeta indígena da etnia omágua/ kambeba que pesquisa identidade e território envolvendo seu povo. além destas atividades, márcia fotografa, compõe e canta. “àrvore da vida” é um poema que está presente no livro de poemas “ay kakyri tama- eu moro na cidade”

sany uny yuçuca tana may-sangara kambeba!
(vem água, banha nossa alma kambeba!)
no despertar da aurora,
no mito de criação,
na gota que traz a vida,
de um povo, de uma nação.
batendo na samaumeira
caindo feito algodão,
pro colo do grande rio
que num sopro de criação,
dá vida ao “índio” guerreiro,
e a mulher, sua paixão.
assim para o povo omágua
a samaumeira tem a função,
de mãe das grandes árvores,
de cura e proteção,
e pelo indígena é cultuada,
essa gigante, mãe amada,
na dança nativa, dos povos irmãos.

 

kartenotú hãpe – alunos da escola indigena pataxó coroa vermelha cd ihixú xôhã suniata’irá iõp pahãtê
presente no cd ihixú xôhã suniata’irá iõp pahãtê, que significa “cantando sonhos de uma nação guerreira”, a canção “kartenotú hãpe” é resultado do processo de ensino e aprendizagem da língua patxôhã feita pelos professores indígenas da escola indígena pataxó coroa vermelha. a aldeia pataxó está localizada em santa cruz cabrália, em porto seguro. nas proximidades, dentro da mata atlântica, uma reserva indígena de cerca de 2.500 hectares abriga cerca de 230 famílias.

kartenotú hãpe
kramiã paxixá dxê’ê mãgutá
kuhú kuhú, kuhú kuhú
peõgãm peõgã, peõgã”
amigo gato
agora eu vou te comer.
corre-corre, pega pega pega

 

 

hiriko – marlui miranda (canto tradicional tupari) cd todos os sons
nascida em fortaleza, marlui miranda realiza pesquisas sobre música indígena, canta e compõe. após uma trajetória de estudos, compôs algumas canções e em 1979, lançou seu primeiro disco, “olho d’água”. do povo tupari, hiriko é uma canção que faz parte de uma festa que é oferecida pelos homens às mulheres como agradecimento ao seu trabalho na roça. a canção referida, está presente no cd todos os sons, de 1995.

 

oreru – tonolec com coro de crianças mbya guarani cd cantos de la tierra sin mal
tonolec é um duo musical argentino formado em 2005 por charo bogarín e diego pérez. o estilo da dupla é caracterizado pela junção da música eletrônica com o canto étnico da etnia qom e guarani. a canção “oreru” é compilação de uma canção infantil cantada nas culturas qom (toba) e guarani no norte argentino e está presente no cd cantos de la tierra sin mal, lançado em 2014.

 

kumbarikira – coro de crianças kukama (amazônia peruana)
“kumbarikira” significa “compadrito” e é um rap que crianças do povo kukama kukamiria da amazônia interpretam. o povo kukama-kukamiria, habita as partes mais baixas dos rios huallaga, maranón, ucayali e amazonas, localizados na província de loreto, requena, ramón castilla, maynas e alto amazonas e em algumas comunidades da região de ucayali no peru.

 

yapinilke mapu – beatriz pichi malen cd la plata
beatriz pichi malen é cantora, pesquisadora e ativista de origem mapuche, nascida na comunidade de los toldos na argentina. ganhadora de prêmios, beatriz realiza palestras e com elas , mas também com a música divulga a herança mapuche. “yapinilke mapu” (terra de yapinilke) é uma canção cantada em mapudungun, língua sagrada do povo mapuche e está presente no cd la plata (2000).

 

tochemet – josefa & camilo ballena (povo wichi) cd tochemet
josefa e camilo ballena são integrantes do povo wichi ou weenhayek, originário do chaco, no centro da américa do sul. atualmente existem aproximadamente 50 mil wichis vivendo na região tarija na bolívia e também no chaco saltenho, na argentina. a canção “tochemet” faz referência a um trabalho de preservação e divulgação da idioma e da cosmovisão wichi.

 

mat tojh is – josefa & camilo ballena (povo wichi) cd tochemet
“mat tojh is” é uma expressão em língua wichi que revela a forma como os humanos podem ver beleza na natureza e significa “que lindo”.

 

ay kakyri tama – poema de Marcia Wayna Kambeba em sua própria voz

“ay kakyri tama” siginifica “eu moro na cidade” e é o nome do livro lançado em 2013. o livro reúne poemas e fotografias de autoria de márcia e que expressam a vivência do povo kambeba dentro das cidades. Conheça mais um pouco dos poemas de márcia aqui.

ynua tama verano y tana rytama.

ruaia manuta tana cultura ymimiua,

sany may-tini, iapã iapuraxi tanu ritual.

eu moro na cidade

esta cidade também é nossa aldeia,

não apagamos nossa cultura ancestral,

vem homem branco, vamos dançar nosso ritual.

nasci na uka sagrada,

na mata por tempos vivi,

na terra dos povos indígenas,

sou Wayna, filha da mãe aracy.

minha casa era feita de palha,

simples, na aldeia cresci

na lembrança que trago agora,

de um lugar que eu nunca esqueci.

meu canto era bem diferente,

cantava na língua tupi,

hoje, meu canto guerreiro,

se une aos kambeba, aos tembé, aos guarani.

hoje, no mundo em que vivo,

minha selva, em pedra se tornou,

não tenho a calma de outrora,

minha rotina também já mudou.

em convívio com a sociedade,

minha cara de “índia” não se transformou,

posso ser quem tu és,

sem perder a essência que sou,

mantenho meu ser indígena,

na minha Identidade,

falando da importância do meu povo,

mesmo vivendo na cidade.

 

q´anil –  balam ajpu cd jun winaq´rajawal qíj / tributo a los 20 nawales
balam ajpu é um coletivo criado em 2012 na guatemala. o grupo composto por mc tzutu, m.c.h.e., dr. nativo e o pianista e compositor danilo rodríguez reúne os ensinamentos da cultura maya e os musicaliza através do hip hop. o álbum tributo a los 20 nawales foi lançado em 2015 e é inspirado nas forças espirituais presentes nos 20 dias do segundo mês do calendário sagrado maya.

separa la tierra, deposita semillas
rojas blancas negras amarillas
una elegancia los colores del maiz
primeras madres floreciendo en la matriz
en un dia q´anil se sembraron los granos
en este mundo la piel de mis hermanos
hermanas códigos de vida en otro plano
que plantó el universo anciano
ixmukane xakút cha ixkil´/ madre luna enseñaste a la madre tierra
chutikik li qaway. li qixim / a sembrar nuestro alimento, nuestro maíz.
xatzaq li qór, xaán bí qatijal / prepararon el maíz, para hacer nuestra carne
chupam li asijal xak´ob´i li qana´oj/ en tu flor guardaron nuestros conocimientos
tyaq, saq, qén raxwach, / rojo, blanco, amarillo, negro
xolop, piley, kinaq´, kixtes, / pintos, piloyes, frijoles, amarantos,
ljátz, saqil, peq, kokow, / semillas de maíz, ayotes, semilla y mazorcas, de cacao
tiqasujuj chawe ixmukane, / te ofrendamos madre luna
nimaq taq winaqi´xattikow kan / grandes civilizaciones enteras te cultivaron
chawij xelesax wi rub´i q´uq´umatz / de ti viene el nombre del cosmos
q´antil, tituxan to li qixim / emerges como una serpiente, tu maíz
q´antil, sijan li qaway/ te siembran y florece nuestro sustento
chawij xelesax wi li qawinaqil / de ti viene nuestra existencia
tiqasujuj chawe, qab´ix / te ofrendamos estos cantos
tak´ama tiquasujuj chawe q´anil / recíbelos, te los ofrecemos gran cosmos de la semilla
con la vara separa la tierra, deposita semillas
rojas blancas negras amarillas
una elegancia los colores del maiz
primeras madres floreciendo en la matriz
en un dia q´anil se sembraron los granos
en este mundo la piel de mis hermanos
hermanas códigos de vida en otro plano
que plantó el universo anciano
q´anil es semilla, venus, un día divino
semen cósmico que a la tierra matriz vino
el ritmo hip hop es la pulsación de este tiempo
germen de seres vivos al cosmocimiento
su crecimiento es lento pero seguro
en este nawal hay expectación al futuro
linaje antiguo, una semilla: un idioma
es una planta que de amor evoluciona
libera el potencial de la energía sagrada
en la médula espinal ahora es liberada
deliberadamente al evento artístico
el gran despertar a éste periodo galactico
mágico ciclico músico en la ciencia
de la oscuridad salimos con paciencia
con la vara separa la tierra, deposita semillas
rojas blancas negras amarillas
una elegancia los colores del maiz
primeras madres floreciendo en la matriz
en un dia q´anil se sembraron los granos
en este mundo la piel de mis hermanos
hermanas códigos de vida en otro plano
que plantó el universo anciano

 

eju orendive – bro mc’s
“eju orendive” é um rap composto e interpretado por jovens guarani-kaiowá, da reserva jaquapiru, em dourados, mato grosso do sul – região na qual as aldeias vêm tentando resistir à pressão de fazendeiros e de empresários ligados ao agronegócio. brô mc´s, grupo pioneiro do chamado rap indígena, é integrante do coletivo terra vermelha.

 

resistencia mapuche – subverso
subverso é um cantor de rap chileno-estadunidense. foi um dos fundadores do projeto “hiphoplogia”, organização que faz trabalhos sociais vinculados à educação popular, e membro do grupo de rap conspirazion. “resistência mapuche – wenu mapu” fala da história de luta da nação mapuche, povo indígena da região centro-sul do chile e do sudoeste da argentina. “wenu mapu”, na mitologia mapuche, é o espaço sagrado e invisível onde habita a família divina, os espíritos do bem e os antepassados.

 

soy un maasewal – pat boy cd mi música en tu zona
nascido em quintana roo, no sudeste mexicano, pat boy é um empreendedor e rapper de origem maya e um dos precursor do rap cantado em língua indígena. em suas composições pat boy procura estabelecer um diálogo com público jovem e narrar o cotidiano dos mayas frente as trocas culturais. o cd mi música em tu zona que conta com a participação de outros artistas locais e nacionais, foi lançado em 2015 e é o quarto disco do artista.

 

katary / identidad – los nin cd shinallami kanchik
um dos primeiros grupos equatorianos a cantar rap em quéchua, los nin vem de uma importante família de músicos e combina em seu trabalho os beats e as líricas do rap com ritmos, instrumentos e saberes de suas comunidades.

 

 

gwyra mi – ramiro musotto cd civilizacao & barbarye
ramiro musotto foi um compositor, percussionista e produtor musical argentino. estudou percussão brasileira, em particular o berimbau, e compos músicas como gwyra mi, que combina levada de capoeira, samba-reggae eletrônico, além de ter incluído vozes do coro de crianças indígenas da tribo guarani tenondé e fragmentos de um discurso do subcomandante marcos, do exército zapatista de liberação nacional.


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