poemas de andréa mascarenhas

andrea mascarenhas é  doutora  em comunicação e semiótica pela puc-sp, leciona literatura na universidade do estado da bahia (uneb). reside em salvador, bahia,  e edita o blog literário arquivosimpertinentes.blogspot.com.br . seus poemas e outros textos têm sido publicados em coletâneas e revistas literárias (nacionais e internacionais), como a elipse, o canal subversa e o caderno literário (da pragmatha), entre outras. andrea mascarenhas também gerencia a página  culturas, tradições, poéticas e oralidades, onde propõe o diálogo sobre culturas e tradições diversas, entre elas as poética da oralidade, antigas e atuais, não somente do brasil. a página está ligada ao grupo de pesquisa literatura e diversidade cultural: imaginário, linguagens e imagens (uneb).

[ciranda à meia noite]

sob o sol da noite,
deixo
a turba
espalhar-se, dentro
irmanações intempestivas

antes,
àquela esquina,
apenas fui

ilógica, sigo
os pés
à marcha
ilusória de si mesmos
como caminhos

meu porto é ribeirinho
e não está longe
mas foge
ao coração
que sempre tarda

meia noite, menina,
escuta a calma e
deixa correr pedrinhas infantes
sob teus pés

ilha de todo dia,
espia,
lava alento
nunca adormecido
nesse rio
que banhou
tanto sofrimento

sonha, nossa sinhá cachoeira
e é tanta brisa
qu’inda chora
ecos anoitecidos
eitos de dor
em rio cheio de mar

[ espera ]

janeiros atropelam . chuvas lavam catástrofes . literaturas invadem juízos . bebo brisas e réstias e o que preciso . espero sob o sol que se me esquece em meio a tarde . faltam lápis, papel e algum sorriso . visto imaginação e muito azul, enquanto descansa o poema . indecisas palavras me acompanham na mesma xícara . cedo meu lugar à paisagem . teu lugar jaz vazio . vejo-me de revés, antes do olhar . reações me surpreendem e nelas me reconheço em evolução . nojos mudam, ao tempo que se dissipam . nada pode ser antes que aconteça, graças ao futuro que espreita a arquitetura dos gestos que ainda vão abalar ventos . sei de mim no desenrolar das cenas que improviso, em múltiplas gradações de automático . conto instantes: os que se bastam e sobretudo os desimportantes . mar, meu quintal, recebe nossos passos assombrados e todo medo inventado . comecem, agora, lições cambiantes de ir e vir, ad æternum . ainda se faz invisível a chave que atende pelo nome de interseção .

[ porém azul ]

pedras dormem sob águas em movimento . perpétuo chamado de vida . azul quase estelar mergulha em calma . paz submerge . luz brilha por nós entre mundos e solidão . escritos se perdem em todo brilho . enlouquece, esquecimento . trilhas amortecidas morrem em meus segundos divididos . herdeira do que serei, habito um voo . capa.espada sem argumentos . descabido, invento teus enredos em descompasso . música te enaltece e desestabiliza . apenas ser passo em ignota terra . enquanto memória saboto o que não sei . tempo suposto me observa em pressa . do meu tempo.quimera, desobedeço . remota madrugada nos recebe . prévia em dia claro . sustenido por pouco entristecido . sem sentidos, tolos percebidos . pés deslumbrados acolhem esforço infindo . tanto em tão poucos momentos . ilusão atormentada como o fundo de uma noite sentida . senda sem marketing . despede-se da hora que já vai tarde . chá disfarça nossa pálida aceitação do que se impõe . medo perdido invade a melodia . já foi meu . deixo que se molhe a face em água e ais . ausência de lágrimas e amnésia . envolta em brisa, noite se nos encanta e não há canto ou flautas . passos seguem em descaminhos inéditos, sem nós . esqueci luas e firmamentos . outros lumes, eras, se banham agora nessa hora . era uma vez deixou de ser tempo . eterno presente nascísico . instante fogo-fátuo . mirada ilusionista . sal, pra sempre molhado nesse azul em disfarce .

[ contemplações de baobá ]

rastros de silêncio . guardo chave pra abrir tempo . tempestade . ligo rádio e passado me diz que tudo é vento . deixo livro entreaberto na página que ouvirei quando deitar e se os olhos quiserem reescrever o que não sei . sereia e chuva se combinam nos mares que cortam esse sono que não vem, seco . revista nova não dá conta de alma nua, perdida em madrugadas . estalar de dedos . sussurros . maré alta dentro da noite que já foi fria . estatuto de aprendiz se quer incerto, feito algum eu que não existe . desacato se perde na rua direita . são paulo e rio . papel colado à parede lê versos pra mim e não é sonho ou devaneio . palavras escorrem, quase em mangues desprezados quando há palco sem hiatos . recuso o riso de academia e seus ferros pesados, corpo duro . viva a flacidez lírica, que sabe bordar como ninguém linhas azuis de vida acesa . ode ao corpo possível, talhado em músculos de pura ilusão . visto a paisagem barata e tão alta quanto um soneto shakespeariano . vestido esfumado na neblina furtacor se exibe indefinido . cheiro de relva lavada e teus orvalhos sorrateiros . relógio perde-se de mim e não há praças sem bancos por onde ir, sen.hora .


compartilhe!

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
  • RSS
  • PDF
  • Email