poemas de andrea mascarenhas

doutora em comunicação e semiótica pela puc-sp, leciona literatura na universidade do estado da bahia (uneb). reside em salvador/ba e edita o blog literário  arquivos impertinentes. seus poemas e outros textos têm sido publicados em coletâneas e revistas literárias brasileiras e portuguesas, como a elipse, o canal subversa e o caderno literário (da pragmatha), entre outras.

[..nunca se puede olvidar de la calle..] 

teu cheiro de manhã me acorda por dentro . já são horas de embevecer . de crepúsculos insones apreendo lembranças tolas . estados de ser tão vagos como asas que supomos possíveis . não tenho tarde como ponteiro . ameaço teus segundos contados . meu tempo é casado com já velhas madrugadas . por la calle un tango se nos recuerda e valsamos (…) porque é noite sem calma e chama . à luz das horas abortadas um pedinte nos desarma e só tem o tesouro do olhar e nos fuzila . nossa cota de lirismos mal arrumados ainda alimenta vísceras arruinadas no alento de repartição . nossa pobre segurança nos transforma em plebe rasa . prefiro o chão rasgado de tuas certezas a meus pensamentos uma hora adiantados . quero-te, mesmo com lógica comprada pronta, ainda que apites à contramão teu cheiro de distância e teu senso de perfeição alheia . o risco é amanhecer .

[fruir de amanhã]

alvoroço de tarde entrou por meus poros . decidida, escuto o futuro . elixir do próximo outono deixa no ar suas cores . àquela árvore menina fiz confidência que crescerá . quero o trem do infinito à disposição . agigantar janelas e portas em nossa construção . nem mínimo nem máximo dão conta de meus desejos: apenas o possível, o nem sempre palpável, o que evola . posso não ter consciência de tanta existência, mas sou partícula . nossa imagem sobre ponte permanece e já somos futuro .

[en.sina]

ao alcance
da retina
renda
trama sombras

neblina
se faz autora
de autônomas
sensações

amanh.essências
não dormem

centelhas de luz
fogem
ao silêncio
ao trágico registro das horas

cadência d’estrelas
emocionam
orvalhos
que choram
barrocas folhagens

da janela tecnológica
mundos inauguram movimento
arquitetado em belezas matemáticas
na ponta
da soma
do olho técnico
seriado

algoritmos
incitam lirismos
e errâncias
certeiras

unidades nano
registros flashes
carta aberta
à fruição

modelagens
fotogramas
horizontes em construção
sopros reservados ao leu: percepções

mundos invisíveis
à espreita
aguardam
em festa pronta
nossos olhos acordarem

ensina
foto.a.foto
caçada de mini.mundos
retratos de singeleza

firmamento
à disposição
horas a preencher
com recortes d’encant.ação

[rasgo de envelhecer]

pouso o amanhecer que me inquieta, mas não paro . ouço risos infantes que já se misturam com os meus, sem tempo . acalmo músicas e distâncias que quero dentro . uma fogueira pra cada solidão que ainda crepita . passos diversos me ensinam outro caminhar inusitado . cada vez mais sei levitar em vapores de sertão . acreditar está para pouco mais que sonhar . com agulhas e bordados também teço escritas . moro em lua de pano quando sigo alta madrugada . faltam poucas pedras em meu pé.de.serra . sonho imensidão povoada de lirismos e todos indecisos entre azul e verde . abro tardes instaladas em fins porque escurecem cedo nossos começos . sozinha, ainda não sei ouvir noites sinfônicas, mas noitifico cada grilo insone . meus hojes vaticinam ontens despidos de amanhãs e assim sou sempre aprendiz de almas poéticas . vagalumes cada vez mais raros, salvo-os aqui, acesos em palavras.lume, a guiarem meus repertórios quase tolos . em.velho.ser, agradeço alegrias a cada dobra de pele.corpo . misturo chás pra beber euforia em doces goles . avizinha-se o tempo que não tenho agora, desculposo por tanta ingratidão . perdoo vozes de maria-vai-com-as-outras em vias de contra.eco . hoje tarda porque reconheço detalhes ínfimos pela universidade de raras humanidades . amanhã não me aborrece porque aposto na surpresa de cada dia . vou com as lidas.lições e ví.vida .


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