ay kakyri tama

eu moro na cidade (ay kakyri tama, em língua kambeba). assim nos chegam, nos tocam, nos interpelam os versos de marcia wayna kambeba, poeta, compositora, fotógrafa, que estará com a gente em salvador no próximo dia 16 de setembro. confira aqui mais detalhes sobre a programação e aqui, um vídeo no qual você pode conhecer um pouco mais sobre o trabalho desta incansável ativista pela memória, pela luta dos povos indígenas destas latitudes. você confere também nesta edição algumas das muitas outras vozes destas latitudes que, vale sempre lembrar, não é apenas “latina”…

clique abaixo para ouvir o programa pelo computador:

clique para ouvir o programa

e abaixo para ouvir através de dispositivos móveis:

território ancestral – poema de márcia wayna kambeba em sua própria voz

maá munhã ira apigá upé rikué

waá perewa, waá yuká

waá munhã maá putari.

o que fazer com o homem na vida,

que fere, que mata,

que faz o que quer.

do encontro entre o “índio” e o “branco”,

uma coisa não se pode esquecer,

das lutas e grandes batalhas,

para terra o direito defender.

a arma de fogo superou minha flecha,

minha nudez se tornou escandalização,

minha língua foi mantida no anonimato,

mudaram minha vida, destruiram o meu chão.

antes todos viviam unidos,

hoje, se vive separado.

antes se fazia o ajuri,

hoje, é cada um para o seu lado.

antes a terra era nossa casa,

hoje, se vive oprimido.

antes era só chegar e morar,

hoje, nosso território está dividido.

antes para celebrar uma graça,

fazia um grande ritual.

hoje, expulso da minha aldeia,

não consigo entender tanto mal.

como estratégia de sobrevivência,

em silêncio decidimos ficar.

hoje nos vem a força,

de nosso direito reclamar.

assegurando aos tanu tyura,

a herança do conhecimento milenar.

mesmo vivendo na cidade,

nos unimos por um único ideal,

na busca pelo direito,

de ter o nosso território ancestral.

o que fazer com homem na vida

que fere, que mata,

que faz o que quer

 

silêncio guerreiro – poema de márcia wayna kambeba em sua própria voz

no território indígena,

o silêncio é sabedoria milenar,

aprendemos com os mais velhos

a ouvir, mais que falar.

no silêncio da minha flecha,

resisti, não fui vencido,

fiz do silêncio a minha arma

pra lutar contra o inimigo.

silenciar é preciso,

para ouvir com o coração,

a voz da natureza,

o choro do nosso chão,

o canto da mãe d’água

que na dança com o vento,

pede que a respeite,

pois é fonte de sustento.

é preciso silenciar,

para pensar na solução,

de frear o homem branco,

defendendo nosso lar,

fonte de vida e beleza,

para nós, para a nação!

 

sip´ohi – canção composta e interpretada por josefa e camilo ballena, do povo wichí, chaco argentino.

 

árvore da vida – poema de márcia wayna kambeba em sua própria voz

sany uny yuçuca tana may-sangara kambeba!

(vem água, banha nossa alma kambeba!)

no despertar da aurora,

no mito de criação,

na gota que traz a vida,

de um povo, de uma nação.

batendo na samaumeira

caindo feito algodão,

pro colo do grande rio

que num sopro de criação,

dá vida ao “índio” guerreiro,

e a mulher, sua paixão.

assim para o povo omágua

a samaumeira tem a função,

de mãe das grandes árvores,

de cura e proteção,

e pelo indígena é cultuada,

essa gigante, mãe amada,

na dança nativa, dos povos irmãos.

araruna – versão que o quarteto vocal argentino de boca en boca fez para esta cantiga dos índios parakanã do pará (adaptação e arranjo: marlui miranda)

(trad.: araruna, arara azul, voa. será que essa arara azul é minha? é minha ou sua? araruna canta agora, araruna vamos trabalhar. aeore vai, nós vamos trabalhar, aeore vai, araruna, arara azul, voa. será que é minha ou sua arara azul?)

araruna anarê ê

araruna anarê

araruna anarê

in’y keu’y köwaná

araruna anarê

araruna barsare nikãre

araruna mã dare wüsare

aeore mã waiá

mã dare wüsare

aeore mã waiá

iwadjuwé araruna

iwadjuwe araruna

araruna mã waiá

iñi keu’y köwaná

araruna anare

mã torí yü tutigü

mã ürsá perkámen pü

mã tori yü tutigü

mã ürsá perkámen pü

mã tori yü tutigü

araruna anarê ê

araruna anarê

araruna anarê

in’y keu’y köwaná

araruna anarê

 

minha pena vermelha – poema de márcia wayna kambeba em sua própria voz

nas cores das minhas plumas,

minha identidade encena,

a sutileza do meu caminhar,

da minha pele morena,

pintada de jenipapo,

contrastando com a minha pena.

no brilho dos meus olhos negros,

de formato amendoado,

sai um olhar penetrante,

feito bicho acuado,

quando se sente ferido,

quando se sente afetado,

pelo preconceito que impede

nosso povo de crescer,

no olhar de estranheza não posso permitir,

que may-tini venha, minha alma ferir.

 

anhangá – quaderna CD quaderna – canção composta e interpretada por allan carvalho, camilo delduque, cincinato jr e walter freitas, músicos que atuam no estado do pará e que realizaram em 2004 pesquisa sobre as diversas amazônias. no caso deste projeto, eles buscaram identificar a presença de traços culturais nordestinos na música da região amazônica.

 

hiriko – canção que faz parte do CD todos os sons (1995) de marlui miranda, compositora, cantora e pesquisadora da cultura indígena. “hiriko” é uma canção do povo tupari e faz parte de uma festa que é oferecida pelos homens às mulheres como agradecimento ao seu trabalho nas roças. os tupari compartilharam com outros povos de rondônia um histórico do contato marcado primeiramente pela exploração e expropriação por seringueiros, e a partir da década de 1980 também por madeireiros e garimpeiros. nos últimos anos os tupari vêm procurando reverter esse quadro e lutam, com outros povos da região, contra a instalação de barragens no rio branco.

hirigo gãi bãi ê
hirigo gãi bãi ê
liriã té korõ hokã
liriã té korõ hokã
korõ hokã
hirigo gãi bãi ê
hirigo gãi bãi ê
hirigo gãi bãi ê

 

ay kakiri tama – canção composta e interpretada por márcia wayna kambeba

ay kakuyri tama.

ynua tama verano y tana rytama.

ruaia manuta tana cultura ymimiua,

sany may-tini, iapã iapuraxi tanu ritual.

eu moro na cidade

esta cidade também é nossa aldeia,

não apagamos nossa cultura ancestral,

vem homem branco, vamos dançar nosso ritual.

nasci na uka sagrada,

na mata por tempos vivi,

na terra dos povos indígenas,

sou Wayna, filha da mãe aracy.

minha casa era feita de palha,

simples, na aldeia cresci

na lembrança que trago agora,

de um lugar que eu nunca esqueci.

meu canto era bem diferente,

cantava na língua tupi,

hoje, meu canto guerreiro,

se une aos kambeba, aos tembé, aos guarani.

hoje, no mundo em que vivo,

minha selva, em pedra se tornou,

não tenho a calma de outrora,

minha rotina também já mudou.

em convívio com a sociedade,

minha cara de “índia” não se transformou,

posso ser quem tu és,

sem perder a essência que sou,

mantenho meu ser indígena,

na minha Identidade,

falando da importância do meu povo,

mesmo vivendo na cidade.

 

kumbarikira –rap interpretado por crianças do povo kukama kukamiria, da amazônia peruana. “kumbarikira” significa “compadrito”. clique aqui e saiba mais sobre o povo kukama-kukamiria

 

bienvenidos/ maiche anawateuo – tonolec CD cantos de la tierra sin mal; tonolec é um projeto musical argentino formado pela cantora charo bogarín e o músico diego pérez que une elementos da música eletrônica e cantos dos povos mbya guarani, qom e castelhano.

 

son sotz leb – sak tzevul CD xch’ulel balamil poema rockfónico

 

kaypi rap – juntucha de rap

 

katary /Identidad – los nin CD shinallami kanchik

 

eju orendive – bro mc’s

aqui o meu rap não acabou

aqui o meu rap está apenas começando

eu faço por amor

escute, faz favor

está na mão do senhor

não estou para matar

sempre peço a deus

que ilumine o seu caminho

e o meu caminho

não sei o que se passa na sua cabeça

o grau da sua maldade

não sei o que você pensa

povo contra povo, não pode se matar

levante sua cabeça

se você chorar não é uma vergonha

jesus também chorou

quando ele apanhou

chego e rimo o rap guarani e kaiowa

você não consegue me olhar

e se me olha não consegue me ver

aqui é o rap guarani que está chegando pra revolucionar

o tempo nos espera e estamos chegando

por isso venha com nós

nós te chamamos pra revolucionar

por isso venha com nós, nessa levada

nós te chamamos pra revolucionar

aldeia unida, mostra a cara

vamos todos nós no rolê

vamos todos nós, índios festejar

vamos mostrar para os brancos

que não há diferença e podemos ser iguais

aquele boy passou por mim

me olhando diferente

agora eu mostro pra você

que sou capaz, e eu estou aqui

mostrando para você

o que a gente representa

agora estamos aqui

porque aqui tem índio sonhadores

agora te pergunto, rapaz

por que nós matamos e morremos?

em cima desse fato a gente canta

índio e índio se matando

os brancos dando risada

por isso estou aqui

pra defender meu povo

represento cada um

e por isso, meu povo,

venha com nós

nós te chamamos pra revolucionar

por isso venha com nós, nessa levada

nós te chamamos pra revolucionar

aldeia unida, mostra a cara

 

xavantes – ramiro musotto CD sudaka


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