brasil: 517?

vejam esta maravilha de cenário: sou brasileiro, de estatura mediana, moro num país tropical, abençoado por deus e bonito por natureza. mas que país é este? brasil, meu brasil brasileiro: mostra tua cara! mas… quais as caras da cara do brasil? este brasil que – no calendário imposto – completa 517 primaveras-hoje-outonos? este brasil cujo pau hoje arde de outro modo? nesta edição especial de latitudes, uma seleção musical que multiplica indagações, que propõe pensar-nos para além de clichês do “ser brasileiro”, do “ser latino-americano”. e na segunda parte, mais alguns bons exemplos das criativas e diversas deglutições. ou seja, um tremendo dum fuá na casa de cabral. um baile parangolé. um manifesto antropofágico das periferias. bom apetite!

 

clique abaixo para ouvir o programa pelo computador:

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confira as canções e xs artistas desta edição:

 

natalia lafourcade – buenas brasil cd encuentros en brasil
composta por natalia lafourcade a canção “buenas brasil”, presente no cd encuentros en brasil fala das características do brasil. realizada para uma série de televisão, esta canção é uma declaração de amor ao país e foi gravada em natal, na praia da pipa. natalia lafourcade, nascida na cidade do méxico, é filha de educadores musicais e em sua carreira já recebeu vários prêmios, entre eles o grammy awards de 2016.

 

buenas brasil en mexicano
saludo las luces que hay en tu ciudad
gracias brasil en mexicano
por abrir tus brazos, quererme abrazar

como le voy hacer con tanto calor?
tanto color se desborda de tu selva
como le voy hacer con tanto sabor?
tan cachondo que se desborda en tus caderas

yo solo quiero bailar, bailar y bailar descalza
sobre tu arena mi cuerpo a tirar
yo solo quiero gozar, gozar y bailar
samba para tu marea

buenas brasil en mexicano
en tus ríos se escuchan susurros de amor
beso frutal de caipirinha
para ponerme feliz, un poco más tropical

habré esperado tanto tiempo para venir a verte y saludar a tus palmeras
habré esperado tanto tiempo para venir y así contar historias de candela

yo solo quiero mirar tu luna, mirar
hasta que se haga de día
yo le quiero cantar
yo solo quiero gozar, gozar y bailar
samba para tu marea
samba para tu marea

como le voy hacer con tanto calor?
tanto calor que se desborda de tu selva
como le voy hacer son tanto sabor?
tan cachondo que se desborda en tus caderas

yo solo quiero bailar, bailar y bailar descalza
sobre tu arena mi cuerpo a tirar
yo solo quiero gozar, gozar y bailar
samba para tu marea

 

soy latino americano – zé rodrix cd soy latino americano
cantor, publicitário, escritor, compositor e multi-instrumentista, josé rodrigues trindade, mais conhecido como zé rodrix nasceu em são paulo, brasil. iniciou sua carreira musical fazendo parte do grupo vocal momento quatro junto a outros três colegas da escola onde cursava o ensino médio. em 1971, zé venceu o festival da canção de juiz de fora ao lado de luís otávio de melo carvalho, o tavito, com a canção “casa no campo”. zé rodrix morreu em são paulo no ano de 2009. a canção “soy latino americano” dá nome ao cd lançado em 1976.

 

não acordo muito cedo
mas não fico preocupado
muita gente me censura
e acha que eu estou errado
deus ajuda a quem madruga
mas dormir não é pecado
o apressado come crú
e eu como mais descansado…

soy latino americano
e nunca me engano
e nunca me engano
soy latino americano
e nunca me engano…

meu caminho pro trabalho
é um pouco mais comprido
eu vou sempre pela praia
que é muito mais divertido
chego sempre atrasado
mas eu não corro perigo
quem devia dar o exemplo
chega atrasado comigo
e diz:…

soy latino americano
e nunca me engano
e nunca me engano
soy latino americano
e nunca me engano…

é legal voltar prá casa
mas eu não volto correndo
quem tem pressa de ir embora
no transporte vai morrendo
e eu que não me apresso nunca
pro meu bar eu vou correndo
e encontro a minha turma toda
sentada na mesa dizendo assim…

soy latino americano
e nunca me engano
e nunca me engano
soy latino americano
e nunca me engano…

quando eu abro a minha porta
muita gente está jantando
quando eu ponho a minha mesa
muita gente está deitando
eu me arrumo e vou prá rua
e na rua vou achando
muita gente que trabalha
se divertindo e cantando
assim:…

soy latino americano
e nunca me engano
e nunca me engano
soy latino americano
e nunca me engano…

 

a cara do brasil – ney matogrosso cd olhos de farol
nascido no estado do mato grosso do sul, brasil, o cantor, ator e diretor ney mato grosso ficou conhecido após participar do grupo “secos e molhados” entre os anos de 1973 e 1974. em 1975, ney seguiu em carreira solo na qual obteve também grande destaque. em 1983 já possuía dois discos de platina e dois discos de ouro. a canção “a cara do brasil” presente no cd olhos de farol (1999) foi composta por vicente barreto, compositor baiano nascido em salgadelha – conceição do coité que começou a carreira musical fazendo parte de uma orquestra, e por seu parceiro celso viáfora, cantor, compositor e arranjador musical nascido em são paulo.

 

eu estava esparramado na rede
jeca urbanóide de papo pro ar
me bateu a pergunta meio à esmo:
na verdade, o brasil o que será?
o brasil é o homem que tem sede
ou o que vive na seca do sertão?
ou será que o brasil dos dois é o mesmo
o que vai, é o que vem na contra mão?

o brasil é o caboclo sem dinheiro
procurando o doutor n’algum lugar
ou será o professor darcy ribeiro
que fugiu do hospital pra se tratar?

a gente é torto igual a garrincha e aleijadinho
ninguém precisa consertar
se não der certo a gente se vira sozinho
decerto então nada vai dar

a gente é torto igual a garrincha e aleijadinho
ninguém precisa consertar
se não der certo a gente se vira sozinho
decerto então nada vai dar

o brasil é o que tem talher de prata
ou aquele que só come com a mão?
ou será que o brasil é o que não come
o brasil gordo na contradição?
o brasil que bate tambor de lata
ou que bate carteira na estação?

o brasil é o lixo que consome
ou tem nele o maná da criação?
brasil mauro silva, dunga e zinho
que é o brasil zero a zero e campeão
ou o brasil que parou pelo caminho:
zico, sócrates, júnior e falcão

a gente é torto igual a garrincha e aleijadinho
ninguém precisa consertar
se não der certo a gente se vira sozinho
decerto então nada vai dar

a gente é torto igual a garrincha e aleijadinho
ninguém precisa consertar
se não der certo a gente se vira sozinho
decerto então nada vai dar

o brasil é uma foto do betinho
ou um vídeo da favela naval?
são os trens da alegria de brasília?
ou os trens de subúrbio da central?
brasil globo de roberto marinho?
brasil bairro, carlinhos candeal?
quem vê, do vidigal, o mar e as ilhas
ou quem das ilhas vê o vidigal?

o brasil alagado, palafita?
seco açude sangrado, chapadão?
ou será que é uma avenida paulista?
qual a cara da cara da nação?

a gente é torto igual a garrincha e aleijadinho
ninguém precisa consertar
se não der certo a gente se vira sozinho
decerto então nada vai dar

 

jack soul brasileiro – fernanda abreu & lenine cd raio x
fernanda sampaio de lacerda abreu nasceu no rio de janeiro, brasil, e é cantora, compositora, escritora, instrumentista e bailarina. o álbum raio x foi lançado em 1997, e conta com a participação de outros artistas já conhecidos no cenário nacional como chico science e lenine, produtor, arranjador, cantor e compositor da canção “jack soul brasileiro” feita em homenagem ao sambista jackson do pandeiro.

jack soul brasileiro
e que som do pandeiro
é certeiro e tem direção
já que subi nesse ringue
e o país do swing
é o país da contradição…
eu canto pro rei da levada
na lei da embolada
na língua da percussão
a dança mugango dengo
a ginga do mamolengo
charme dessa nação…
quem foi?
que fez o samba embolar?
quem foi?
que fez o coco sambar?
quem foi?
que fez a ema gemer na boa?
quem foi?
que fez do coco um cocar?
quem foi?
que deixou um oco no lugar?
quem foi?
que fez do sapo
cantor de lagoa?…
e diz aí tião!
diga tião! oi!
foste? fui!
compraste? comprei!
pagaste? paguei!
me diz quanto foi?
foi 500 reais
me diz quanto foi?
diga tião!
oi!
foste? fui!
compraste? comprei!
pagaste? paguei!
me diz quanto foi?
foi 500 reais
me diz quanto foi?
jack soul brasileiro
do tempero, do batuque
do truque, do picadeiro
e do pandeiro, e do repique
do pique do funk rock
do toque da platinela
do samba na passarela
dessa alma brasileira
despencando da ladeira
na zueira da banguela
alma brasileira
despencando da ladeira
na zueira da banguela
diz ai quem foi……
quem foi?
que fez o samba embolar?
quem foi?
que fez o coco sambar?
quem foi?
que fez a ema gemer na boa?
quem foi?
que fez do coco um cocar?
quem foi?
que deixou um oco no lugar?
quem foi?
que fez do sapo
cantor de lagoa?…
me diz aí tião!
diga tião! oi!
fosse? fui!
comprasse? comprei!
pagasse? paguei!
me diz quanto foi?
foi 500 reais…
eu só ponho bebop no meu samba
quando o tio sam
pegar no tamborim
quando ele pegar
no pandeiro e no zabumba
quando ele entender
que o samba não é rumba
aí eu vou misturar
miami com copacabana
chiclete eu misturo com banana
e o meu samba, e o meu samba
vai ficar assim…
ah! ema geme…
aaaaah ema gemeu!
eu digo deixa!
que digo!
que pensem!
que fale!
deixa isso pra la
vem pra ca
o que que tem
eu não to fazendo nada
você também
não faz mal bater um papo assim gostoso com alguém

 

inclassificáveis – arnaldo antunes
nascido em são paulo, brasil, arnaldo antunes é músico, artista visual poeta e compositor. participou da banda titãs, do trio musical tribalistas, o qual ganhou o prêmio de melhor álbum pop contemporâneo brasileiro, além de ter uma carreira solo de destaque na cena musical e literária brasileira. composta por arnaldo antunes, “inclassificáveis”está presente no álbum o silêncio, de 1996.

que preto, que branco, que índio o quê?
que branco, que índio, que preto o quê?
que índio, que preto, que branco o quê?

que preto branco índio o quê?
branco índio preto o quê?
índio preto branco o quê?

aqui somos mestiços mulatos
cafuzos pardos mamelucos sararás
crilouros guaranisseis e judárabes

orientupis orientupis
ameriquítalos luso nipo caboclos
orientupis orientupis
iberibárbaros indo ciganagôs

somos o que somos
inclassificáveis

não tem um, tem dois,
não tem dois, tem três,
não tem lei, tem leis,
não tem vez, tem vezes,
não tem deus, tem deuses,

não há sol a sós

aqui somos mestiços mulatos
cafuzos pardos tapuias tupinamboclos
americarataís yorubárbaros.

somos o que somos
inclassificáveis

que preto, que branco, que índio o quê?
que branco, que índio, que preto o quê?
que índio, que preto, que branco o quê?

não tem um, tem dois,
não tem dois, tem três,
não tem lei, tem leis,
não tem vez, tem vezes,
não tem deus, tem deuses,
não tem cor, tem cores,

não há sol a sós

egipciganos tupinamboclos
yorubárbaros carataís
caribocarijós orientapuias
mamemulatos tropicaburés
chibarrosados mesticigenados
oxigenados debaixo do sol

 

fuá na casa de cabral – mestre ambrósio cd fuá na casa de cabral
surgida em recife, pernambuco, no ano de 1992, a banda mestre ambrósio foi uma das responsáveis pela difusão do manguebeat – movimento que une ritmos como o maracatu com outros estilos, por exemplo, o hip hop e o rock. em 1999 o grupo lançou o cd fuá na casa de cabral, nome também da canção composta por sérgio roberto veloso de oliveira (siba) e hélder vasconcelos , ambos integrantes do grupo.

 

naquele brasil antigo
perdido no desengano
seu cabral chegou nadando
e não preocupou com nada
deu ordem à rapaziada
mandou varrer o terreiro
“me chame o pai do chiqueiro
que hoje eu quero forró,
toré, samba, catimbó
que eu já virei brasileiro”

foi gente de todo tipo
na festa de seu cabral
português de portugal
raceado no oriente
negão bebeu aguardente
caboclo foi na jurema
seu cabral pediu um tema
danou-se a cantar poesia
até amanhecer o dia
numa viola pequena

no fim da festa e da farra
cabral não sentiu preguiça
mandou logo rezar a missa
pra ficar aliviado
chamando o padre, apressado
mandou começar ligeiro
botando ordem no terreiro
com seu maracá na mão
jurando pelo alcorão
que era crente verdadeiro

mas na hora da verdade
quando passou a cachaça
seu cabral sentou na praça
caiu na reflexão
disse: “esta situação
sei que nunca mais resolvo!”
então falou para o povo:
“juro que me arrependi
o brasil que eu descobri
queria cobrir de novo!”

 

etnia – chico science & nação zumbi cd afrociberdelia
segundo álbum da banda brasileira chico science & nação zumbi, afrociberdelia (1996) completou 20 anos de lançamento em 2016. o cd atingiu 100 mil cópias vendidas e ganhou disco de ouro após a morte de chico em 1997. deste cd confira a canção “etnia”, composta por chico science e por lúcio maia, guitarrista da nação zumbi, uma das bandas que deram origem ao movimento manguebeat.

somos todos juntos uma miscigenação
e não podemos fugir da nossa etnia
índios, brancos, negros e mestiços
nada de errado em seus princípios

o seu e o meu são iguais
corre nas veias sem parar
costumes, é folclore é tradição
capoeira que rasga o chão

samba que sai da favela acabada
é hip-hop na minha embolada
é o povo na arte
é arte no povo

e o povo na arte de quem faz arte com o povo
por detrás de algo que se esconde
há sempre uma grande mina de conhecimentos e sentimentos
não há mistério em descobrir o que você tem e o que você gosta
não há mistério em descobrir o que você é e o que você faz

maracatu psicodélico
capoeira da pesada
bumba meu rádio
berimbau elétrico

frevo, samba e cores
cores unidas e alegria
nada de errado em nossa etnia.

 

mosca na cerveja – raul seixas vs chico science – criolinamashup (sistema criolina) cd europe summer tour (ep)
formado pelos djs e produtores tiago pezão, rafael e rodrigo barata, sistema criolina é um  coletivo brasiliense criado em 2005 que realiza atividades culturais e musicais. a canção que homenageia outros dois importantes músicos brasileiros “mosca na cerveja – raul seixas vs chico science” está presente no cd europe summer tour.

 

vamos comer caetano – adriana calcanhotto cd marítimo
nascida em porto alegre, adriana calcanhoto é cantora e compositora. ganhou seu primeiro instrumento musical, o violão, da avó, quando tinha apenas seis anos de idade. “vamos comer caetano”, está presente no cd marítimo (1998).

vamos comer caetano
vamos desfrutá-lo
vamos comer caetano
vamos começá-lo

vamos comer caetano
vamos devorá-lo
degluti-lo, mastigá-lo
vamos lamber a língua

nós queremos bacalhau
a gente quer sardinha
o homem do pau-brasil
o homem da paulinha
pelado por bacantes
num espetáculo
banquete-ê-mo-nos
ordem e orgia
na super bacanal
carne e carnaval

pelo óbvio
pelo incesto
vamos comer caetano
pela frente
pelo verso
vamos comê-lo cru

vamos comer caetano
vamos começá-lo
vamos comer caetano
vamos revelarmo-nus

 

baile parangolé – joão brasil cd tropical baile tech
presente no cd tropical baile tech, a canção “baile parangolé” é uma homenagem feita pelo produtor e dj, joão brasil ao caetano veloso, ao seu livro “verdade tropical” e ao movimento tropicalista. joão é um representante das mashups no brasil, gênero musical que compõe canções a partir da mescla de outras duas pré existentes. no caso deste artista, destacam- se as misturas entre os gêneros funk, tecnobrega e mpb.

 

 

obrigado, darcy! (o brasil que vai além) – emicida & rael
leandro roque de oliveira, emicida, é rapper e produtor musical. nascido em são paulo, emicida, compunha e pedia para um amigo gravar e vender suas criações. junto ao cantor e rapper rael da rima, também nascido em são paulo, emicida lançou a música “obrigado, darcy!”, em homenagem a darcy ribeiro, antropólogo mineiro.  obrigado, darcy! foi composta para o festival south by south west (estados unidos) em 2014.

 

calo nas mãos
bola nos pés
banzo ou não
diz quem tu és

arranha-céus ou igarapés
força de bateria nota 10
ao olho alheio, trem sem freio, viu
é um coração cheio, um estômago vazio
é a bunda da mulata ou é um moleque de fuzil
paixões e contradições mil
sou do cristo do rio, riso efêmero
pô, qual tua cor? valor? qual teu gênero?
se descer sem sambar, eles tremerão
com roteiro de inspirar james cameron
terra de vera cruz, luz, berço da vida
os vilão que é do bem, dos heróis genocidas
sonho de paz, outros carnavais
sou um povo que tem como seu maior bem
gritar gol

gritar gol
gritar gol
gritar gol

do oiapoque ao chui
é isso que eu sou
mistura de tupi com sangue de nagô
recantos de zumbi
batuque de tambor
brasil é isso aí
em todo canto, por onde for

por onde for
por onde for
por onde for

e o que resta pra nós
forca ou amor?
força do tambor de pele, de chumbo
seja como for, livre ou no jumbo
raiz fica
no riso dos pobres da cidade mais rica

eu vou pintar o rosto e a rua
igual criança pura
catar a única esperança
a alegria na fita, o impasse
batuque na marmita
apatia na face
vem ver onde o samba nasce

ladeira, entender o segredo da capoeira
na luta e na dança, luta a cada round
nocautes e nocautes nossos
que a tv não aplaude
somos reis undergroud, matéria prima
macunaíma
no peito da américa latina
hi-tech de terreiro
o sonho de darcy ribeiro

dorme em cada brasileiro
dorme em cada brasileiro
dorme em cada brasileiro

do oiapoque ao chui
é isso que eu sou
mistura de tupi com sangue de nagô
recantos de zumbi
batuque de tambor
brasil é isso aí
em todo canto, por onde for

por onde for
por onde for
por onde for

 

haiti – elza soares cd do cóccix até o pescoço
cantora e compositora, nascida no rio de janeiro- brasil, elza soares iniciou sua carreira no show de calouros de ary barroso, na década de 50. elza possui vários discos, entre eles do cóccix até o pescoço (2002) no qual está “haiti” composta por caetano veloso e gilberto gil.

quando você for convidado pra subir no adro
da fundação casa de jorge amado
pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
dando porrada na nuca de malandros pretos
de ladrões mulatos e outros quase brancos
tratados como pretos
só pra mostrar aos outros quase pretos
(e são quase todos pretos)
como é que pretos, pobres e mulatos
e quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
e não importa se os olhos do mundo inteiro
possam estar por um momento voltados para o largo
onde os escravos eram castigados
e hoje um batuque, um batuque
com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
em dia de parada
e a grandeza épica de um povo em formação
nos atrai, nos deslumbra e estimula
não importa nada:
nem o traço do sobrado
nem a lente do fantástico,
nem o disco de paul simon
ninguém, ninguém é cidadão
se você for ver a festa do pelô, e se você não for
pense no haiti, reze pelo…
o haiti é aqui
o haiti não é aqui
e na tv se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
plano de educação que pareça fácil
que pareça fácil e rápido
e vá representar uma ameaça de democratização
do ensino de primeiro grau
e se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
e o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
e nenhum no marginal
e se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
brilhante de lixo do leblon
e ao ouvir o silêncio sorridente de são paulo
diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
e pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
e quando você for dar uma volta no caribe
e quando for trepar sem camisinha
e apresentar sua participação inteligente no bloqueio a cuba
pense no haiti, reze pelo
o haiti é aqui
o haiti não é aqui

 

manifesto da antropofagia periférica – sergio vaz (cooperifa)
criador da cooperifa – cooperativa cultural da periferia e do sarau da cooperifa, sergio vaz é um poeta brasileiro nascido em minas gerais. inspirado pela semana de arte moderna (1922), em 2007 ele criou a semana de arte moderna da periferia e escreveu, junto com os demais participantes da cooperativa, o manifesto da antropofagia periférica. foi escolhido pela revista época como um dos 100 brasileiros mais influentes de 2009. sergio possui alguns livros publicados, entre eles estão: colecionador de pedras (2007) e literatura, pão e poesia (2011).

a periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. dos becos e vielas há de
vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. eis que surge das
ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. a favor de
um futuro limpo, para todos os brasileiros.

a favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a
diversidade. agogôs e tamborins acompanhados de violinos, só depois da aula.

contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. contra a
arte fabricada para destruir o senso crítico, a emoção e a sensibilidade que
nasce da múltipla escolha.

a arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.

a favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. da
poesia periférica que brota na porta do bar.
do teatro que não vem do “ter ou não ter…”. do cinema real que transmite
ilusão.
das artes plásticas, que, de concreto, quer substituir os barracos de
madeiras.
da dança que desafoga no lago dos cisnes.
da música que não embala os adormecidos.
da literatura das ruas despertando nas calçadas.

a periferia unida, no centro de todas as coisas.

contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte
vigente não fala.

contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala.

é preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. aquele
que na sua arte não revoluciona o mundo, mas também não compactua com a
mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. um artista
a serviço da comunidade, do país. que armado da verdade, por si só exercita
a revolução.

contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo
da poltrona.
contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e
espaços para o acesso à produção cultural.
contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado.
contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. miami pra eles ?
“me ame pra nós!”.
contra os carrascos e as vítimas do sistema.
contra os covardes e eruditos de aquário.
contra o artista serviçal escravo da vaidade.
contra os vampiros das verbas públicas e arte privada.
a arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.

por uma periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor.

é tudo nosso!


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