de charanda e de sopapo

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a programação no i festival latitudes latinas – afropercussividades, segue cheia de ritmos como anunciado. o dia começou, literalmente com os tambores no fogo, para a devida afinação dos instrumentos. é quase um ritual sagrado para iniciar a oficina ritmos afrolatino-americanos que aconteceu hoje, no mam, salvador, bahia.

com a presença dos músicos gaúchos richard serraria e lucas kinoshita e dos argentinos pablo suárez e vivi pozzebón, o momento permitiu perceber a importância da cultura negra na américa latina, em especial, na argentina e no rio grande do sul.

a invisibilidade da cultura negra na história dessas regiões instiga a pesquisa desses músicos e impulsiona um cuidadoso trabalho de criação musical. o candombe, segundo pablo, vem sendo recriado em mescla com outros ritmos em sua região de origem, o litoral argentino. já o sopapo, muito recentemente, tem sido apropriado por crianças e mulheres, já que passa a ser construído em formatos menores, no rio grande do sul, brasil.

talvez cause surpresa a quem está habituado com o samba reggae e os afoxés da bahia, constatar tantas identidades e a beleza das nuances presentes no jeito de tocar e celebrar que marcam as diversidades afropercussivas nessas regiões.

aqui abaixo, transcrevemos alguns momentos da oficina.

os tambores do candombe

suárez contou histórias, das quais transcrevemos aqui alguns trechos. a música negra na região do rio da prata, na argentina, ficou restrita aos círculos familiares, dentro das casas das famílias. veio às ruas e ganhou mais visibilidade no carnaval, em 1976.

em buenos aires, o candombe foi retirado das ruas. e o candombe uruguaio se expandiu. hoje é mais conhecido na argetina do que o candombe argentino.

suárez mostrou canções e ritmos cantados especificamente na festa de são balthazar, um santo negro, festejado no dia seis de janeiro na cidade de empedrado, na província de corrientes. zemba, o nome antigo ou charanda, o nome mais recente da festividade. nessa festa é usado um tambor chamado “bombo de empedrado”. ele é cavado em um tronco de árvore, de mais de 1,5m é tocado por duas pessoas, ao mesmo tempo, sentadas, uma em cada ponta. na ausência de um exemplar, pablo e lucas improvisaram…

os “tamboreros” entoam cantos de homenagem ao santo. atualmente são três cantos, mas há registro de sete.

– já chega el día, charanda, chorando estoy charanda, já que chega el día que chorando estoy, charanda.

o povo festeja e crê que esses cantos foram transmitidos a eles pelo santo e fazem a louvação.
– viva são baltazar, viva o santo rei! viva rufino pérez o tamborero/charandero lendário. 

tudo isso está ligado a uma única raiz que é de origem dos povos bantu o ritmo tangó, com toque congo – esse é o canto ritual do 6 de janeiro para são baltazar.

pablo fez com o grupo, na oficina, um dos ritmos de candombe tocados atualmente em paraná, cidade onde vive na argentina e lugar, a partir do qual, pesquisa todos esses sons tradicionais e participa de um movimento de recriação a partir da música afropercussiva.

depois das demontrações, o grupo foi para o palco e tocou junto.

o tambor de sopapo – rio grande do sul

zona de fronteiras móveis, a princípio de domínio espanhol. todo o RS era espanhol. no século XVII portugal passa a ocupar a região. e a chegada dos negros para trabalhar na agropecuária vai se dar a partir do século XVIII, por volta de 1730.

“o processo de construção da identidade nacional brasileira priorizou fortalecer a identidade com a europa e não com a áfrica. no sul não há um reconhecimento de que a musicalidade afro é gaúcha. a contribuição negra para a formação da identidade e da cultura tradicional do rio grande do sul é invisibilizada. há bastante resistência quanto a esse entendimento”, diz serraria.

eles contaram também a história do projeto cabobu, nome que homenageia ca – cacaio, bo- boto , bu- bucha que foram três dos grandes tocadores do tambor sopapo de que se tem registro. no contexto desse projeto, desenrolado em 2010, foram construídos e distribuídos 40 tambores de sopapo em pelotas como símbolo da presença dos negros e sua importância para o rio grande do sul. os tambores são um símbolo dessa afirmação, desse reconhecimento.

lucas e richard apresentaram um sopapo feito com coro de cavalo, que deixa o timbre mais grave.

para os músicos, o carnaval de pelotas que é responsável por manter vivo o instrumento até o final do século XIX, com todas as mudanças que sofreu, também é o responsável pelo desaparecimento do sopapo do samba no sul. isso se deve a vários fatores, alguns deles bastante curiosos: o ritmo lento e o tamanho dos instrumentos. “o som do sopapo é longo e lento e isso embola o samba”, dizem.

o movimento que estão fazendo no rio grande do sul, contribui para que o tambor apareça em diversos contextos além do carnaval. a apropriação pelas mulheres e pelas crianças, com a construção de tambores menores é um exemplo.

depois de contar a história, os participantes foram ao palco e mostraram como aprenderam o toque cabobu.

texto: scheilla gumes / colaboração: rosana silva

veja mais fotos do festival por raiane vasconcelos

 


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