geni guimarães

geni guimarães nasceu na área rural do município de são manoel, são paulo, em 08 de setembro de 1947. professora, poeta e ficcionista, em 1979, ela lançou seu primeiro livro de poemas intitulado terceiro filho (1979). em sua literatura, encontramos tons de protesto e afirmação identitária, voltados principalmente para questões de raça e de gênero.

integridade

ser negra,
na integridade
calma e morna dos dias.
ser negra,
de carapinhas,
de dorso brilhante,
de pés soltos nos caminhos.
ser negra,
de negras mãos,
de negras mamas,
de negra alma.
ser negra,
nos traços,
nos passos,
na sensibilidade negra.
ser negra,
do verso e reverso,
do choro e riso,
de verdades e mentiras,
como todos os seres que habitam a terra.
negra
puro afro sanque negro,
saindo aos jorros
por todos os poros.

bicho da seda

nascia
um belo dia,
emoção forte me causou vertigem,
mamei minha mãe na fonte
de leite fiz um verso virgem.
dos rios mastiguei os córregos
dos sóis sorvi dourados bicos
tomei do alfabeto, os símbolos
com eles fiz um verso rico.
mas, da primeira cobra
armada em botes,
aprendi as contorções molengas
tomei da angustia, vida fluída
ri um verso duro, capenga.
sou hoje colheita descoberta
dos amores de auroras nas fazendas,
extração dos capitães de mato
e dos de areia do jorge.
explico então:
o poeta é um bicho de seda…
que explode

caça
quero um homem,
sensível, gostoso,
malandro e moleque.
quero um homem,
de garras,
coragem,
astúcia:
quero um negro.
quero um homem,
de cama,
de colo,
de terra maciça.
quero um homem,
de beijo vadio,
de longos caminhos,
de peito pisado:
quero um negro.
quero um homem,
em deslimites,
desbarreiras,
abscreto.
quero um homem,
que e peça,
me enole,
me ganhe:
quero um negro.
quero um homem,
que transforme rosas,
em versos de amor,
espinhos em soluços.
quero um homem,
de riso na testa,
de olhos nos dedos,
andares no peito:
quero um negro.
quero um homem,
para o amor momento,
para o qualquer dia,
para o qualquer tempo.
quero um homem,
para ser,
para estar,
para ir ou ficar,
nos detalhes da minha negritude
em síntese,
quero um negro.

minha mãe
gosto da inocência dela:
benze crianças,
faz simpatias,
reza sorrindo,
chora rezando.
gosto da inocência dela:
apanha rosas,
poda os espinhos,
coloca nas mãos,
de meninos branquinhos.
gosto da inocência dela:
conta histórias longas,
de negros perdidos,
nas matas cerradas,
dos chãos do país.
ama a todo o mundo,
diz que a ida à lua,
é conto de fada.

gosto da inocência dela:
crê na independência,
e é tanta a inocência,
que até hoje ela pensa,
que acabou a escravidão.
… inocência dela…


compartilhe!

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
  • RSS
  • PDF
  • Email