ìyemònjá-òduá, fragmento do livro um defeito de cor, de ana maria gonçalves

Quando o mundo foi criado, Olodumaré, o deus supremo, mandou três divindades à terra: Ogum, o senhor do ferro, Obarixá, o senhor da criação dos homens, e Oduá, a única mulher e a única que não tinha poderes. Por causa disso, Oduá  foi se queixar a Olodumaré e recebeu dele o poder do pássaro contido em uma cabaça, o que fez dela uma Ìyá Won, a nossa mãe suprema, a mãe de todas as coisas e para toda a eternidade, a que dá continuidade a tudo que existe ou venha a existir. Olodumaré disse a Oduá que a partir de então o homem nunca mais poderia fazer nada sem a colaboração da mulher. Com o poder dos pássaros, as mulheres receberam de graça e de nascimento o axé, que é uma energia que os homens têm que cativar. A explicação para esse poder estar desde sempre com as mulheres deve estar relacionada ao ninho, representado pela cabaça, ou ao ovo, gerado pelo pássaro. Por meio dele, as mulheres passam a ser as que geram, as que fertilizam, a dona da barriga, que é por onde circula toda a energia e a vida do corpo, através do sangue. É por isso que a mulher tem as regras, porque o grande poder feminino segue o rastro do sangue.

Olodumaré também alertou Oduá que esse era um poder muito grande, maior do que qualquer outro, e que por isso deveria ser usado com cuidado. Mas Oduá abusou, o que fez com que Obarixá fosse se queixar a Olodumaré, preocupado e humilhado com o poder concedido às mulheres. Olodumaré fez o jogo do Ifá para Obarixá e o ensinou a conquistar e vencer Oduá, usando a astúcia e fazendo sacrifícios e oferendas. Ele seguiu os conselhos e conseguiu se casar com Oduá depois de tê-la enganado, fazendo com que comesse uma de suas quizilas. Com o passar do tempo, Obarixá conquistou a confiança de Oduá e descobriu de onde vinha grande parte do seu poder, o culto aos eguns. Ela também mostrou a roupa especial dos eguns e deixou que ele, em segredo, participasse dos cultos. O que Oduá não sabia era que tudo isso fazia parte dos planos de Obarixá, que aproveitou um dia em que ela saiu de casa para modificar e vestir a roupa de egum, chamado então de egungum, e foi assim vestido para a cidade. Quando viu a roupa de egungum andando e falando, Oduá percebeu que tinha sido enganada e reconheceu que merecia ser castigada pelo descuido. Ela então prestou homenagem à esperteza de Obarixá e mandou que o pássaro pousasse sobre ele, para que ele tivesse o poder de transformar em realidade tudo o que dissessem as suas palavras. Depois disso, Oduá nunca mais participou do culto aos egunguns, permitido somente para os homens, e ficou com o culto às Ìyámis. Os eguns masculinos são os egunguns e os femininos são as Ìyámis. Os egunguns são cultuados separadamente, e somente pelos homens, como um castigo ao abuso e ao descuido de Oduá. Mas, como uma homenagem às mulheres, os homens vestem roupas de mulher. Toda Ìyámi, ou Ìyámi agbá, é cultuada na pessoa de Ìyámi Òsòròngá, que também é chamada Ìlá N’La, e para isso as mulheres se unem nas sociedades gelédés. Ìyámi Òsòròngá também pode ser chamada de Ìyemònjá-Òduá, a dona dos mares, a dona das águas que nutrem e fecundam a terra, o grande útero do mundo.

Trecho adaptado do livro:

GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2006.


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