lílian almeida

licenciada em letras vernáculas pela universidade estadual de feira de santana, lílian almeida fez mestrado em diversidade e literatura cultural pela universidade estadual de feira de santana (2006) e doutorado em teoria da literatura pela pontifícia universidade católica do rio grande do sul (2014).  é professora assistente na universidade do estado da bahia. leia os textos  de lílian almeida que selecionamos do livro  todas as cartas de amor, lançado  pela editora quarteto em 2014.

fênix

para rita santana

no chão, os meus restantes.
estatelei-me no voo.
esfacelada, a altura era o solo.
uma asa esmagada
um pé quebrado
os olhos parados
o tronco desconjuntado
restantes em fragmento do que te dei inteiro.

recolhi as partes.
lavei com lágrimas
sequei com rotos sorrisos.

secreto unguentos de sangue e muco
e cicatrizo os cortes.
suturo as dores com o preto fio dos meus cabelos
para deixar marcado, no corpo da fênix,
a porção mulher que há em mim.

uma dor de mim

acordo quando passa das tantas. a voz do mocinho embalou meu sono. agora o anúncio do próximo filme. a luz do apartamento ao lado está acesa. algum solitário também? e você, amado, o que faz nesta madrugada fria de agosto? também gasta seu tempo entre os cochilos e a televisão?

as alterações de luzes no apartamento vizinho indicam a vigília. alguém na vasta madrugada acompanha-se das imagens em constante mutabilidade na tela de plasma. será um filme tipo corujão? uma sequência de jogos? a cortina na janela revela apenas o interminável das cores em mudança.

o edredom em preto e branco aquece o frio. a programação da tv a cabo ocupa o meu vazio nessa noite. onde está você, por que não traz o seu calor para junto de mim? avanço os canais à procura do que não sei. desenhos animados, seriados e mais seriados, futebol, noticiários, filmes e filmes. ver seu rosto na tela é impossibilidade.

caminho pela casa. o que busco? não sei. talvez os indícios da sua presença, os registros da sua passagem pela minha vida. você também está sempre indo? quando o caminho das suas idas chegará à minha porta? porta da casa, do táxi, do hotel, do avião. por qualquer uma delas as nossas trilhas podem se cruzar.

a xícara de café aquece a minha mão na falta da sua. olho outra vez a janela encortinada do vizinho. as luzes ainda alternam-se. quantas ilhas de pessoas estão à deriva neste prédio de quinze andares? quantas telas de plasma oferecem companhia numa madrugada gelada de inverno? quantas xícaras de café esquentam o tempo de uma madrugada que se arrasta? quantos edredons de casal aquecem o frio de um corpo sozinho?

o noticiário me oferece em inglês a crise imobiliária norte-americana. recuso. agora não quero números e índices e riscos monetários. que jornal estampará a epidemia de solidão das pessoas? em quantas línguas será noticiada a crise dos apartamentados? estrangulo os esquadros de uma vida em alta de números e aquisições e em baixa de mim mesma. a balbúrdia dos sons da tv explode uma dor de mim. olho a janela ao lado. haverá também, ali, uma dor? uma dor adormecida ou acordada? e você, tem dores caladas pela televisão nas noites frias?
aperto o power e me calo para ouvir melhor o vazio. a chuva molha a vidraça e descortina as retas onde me prendo. vários feixes de linhas paralelas e perpendiculares constroem o ângulo reto em mim. cada ângulo conversa com números e percentuais. estou cercada. empurro os traços, abro as arestas. a rigidez das demarcações é maior. o vidro esboça molhados desenhos curvilíneos. sinuosidades e angulações. o caminho. a curva no vidro, no corpo, na estrada. na curva, amado, tudo se amplia?

 

revoada de pássaros e números

no espaço que viceja, o meu olhar é fulgurante. sutil véu desvela novas retinas nascidas na aurora.

o farto café da manhã de frente para o mar intenso nutre-me para além da fisiologia. a força das vagas batendo a areia estremece o meu íntimo em perfeito refazer-se. o táxi aguarda-me. o ritmo dos veículos no asfalto é acelerado. não sigo o compasso dos ponteiros do relógio. chegar? eu chegarei no justo tempo. pelo vidro do veículo acompanho o mar da barra.

na sala de reuniões os números pulam nas planilhas. esboço um riso para a festa silenciosa dos gráficos, índices e relatórios. alcançar as metas, conter os riscos. flexibilidade com precisão. comento, analiso, advirto, sugiro. aponto os avanços, concedo os elogios, ofereço a confiança sob a forma de um sorriso. a equipe sorri e acredita no potencial de crescimento dela própria e da empresa. o dia é cheio de análises e avaliações. no projetor, as linhas oscilam subida e descida dos lucros da filial. meus olhos reconhecem as curvas libertas dos ângulos retos. através do vidro uma revoada de pássaros carrega a densidade dos números e dos rostos.

a tarde se estica para levar-me ao mar do museu. na hora do céu alaranjar-se eu contemplo as esculturas, os mosaicos e a baía de todos os santos. um pequeno vagão atravessa os trilhos do passado no solar. estilhaços de retinas enquadradas de não ver passam através de minhas íris. o passado atravessa-me. olho e olho na constatação de me ver outra. meus olhos redondos se espelham na circunferência do sol. o astro esconde-se além do horizonte. deferência em aplausos. casais selam o momento com beijos. você é uma lembrança esmaecida. onde o soltei de mim? onde eu me encontrei, sem você? na curva. na curvatura dos gestos. o esquecimento de mim mesma lembra-me do que sou agora. pequeninas ondas balançam-se na leveza do mar em escuro. o ritmo serenado acalenta o novo em mim. ondulações.

o quarto é quente como um útero. tiro as roupas ritualisticamente. cada peça revela um segredo explícito no corpo. o espelho exibe o que eu não via. eu mesma. desvendo-me. perscruto-me. viro-me e desviro-me. quando esta marca nasceu? e este sinal? reconheço as sinuosidades. a curva da cabeça, do nariz, dos ombros, dos seios, das nádegas, das pernas longilíneas. a água contorna meu corpo e desfaz-se. toco-me. sinto-me. pertenço-me. a concretude da ação tece finos fios no tempo de existir.

do bar eu vejo as ondas bravias e negras quebrarem na areia iluminada. acompanho-me saboreando uma caipirinha. os faróis passam apressados. a música ambiente pergunta o que é feminina. meus olhos sorriem. exercer as sinuosidades, respondo em sonoro silêncio. estou sempre indo. percorrer caminhos fundos dentro de mim. no encontro da chegada em mim, a partida é começo de ir.

 

folga das retas e ângulos

pela janela do hotel o pão de açúcar aponta a direção. seguir em curvatura de ângulos e linhas. por quê? na estrada reta não te encontrarei? o que busco fora dos esquadros e dos traços? onde os riscos me cortam, esquadrinham?

na sala de refeições, as mesas são redondas. além dos vidros, os morros ondulam o céu. na parede, o relógio insinua as sinuosidades do mapa brasileiro. curvaturas. por que não a linearidade do mapa português? onde as esquinas dos edifícios que rasgam o azul em quadrados? cadê as mesas retangulares, quadradas, triangulares? a bancada do hotel recepciona em longa curva. a mesa de centro é um triângulo de redondas quinas. a voz nasalizada do taxista arredondava qualquer informação. curvaturas envolviam linearidades e os ângulos retos.
pelo vidro da sala de reuniões os retos edifícios ficam embaçados. exercito o encurvamento dos lábios em risos e sorrisos. exerço a precisão dos prognósticos e a doçura de reconhecer o trabalho da equipe. experimento folgar as linhas. os números e anotações e percentuais e relatórios agitam-se efusivamente numa visão longínqua.

a noite deita-se sobre o dia. o táxi amarelo leva-me de volta ao hotel. peço um filet à milanesa com arroz e batata sauté, no quarto. ligo a tv no noticiário internacional. não escuto. atravesso a tela com um olhar que se perde no sem fim. aonde as curvaturas do dia vão me levar? onde estive, estou, estarei? onde você está? aumento a potência do condicionador de ar. o frio diminuirá o calor dessa noite? diminuirá a velocidade das minhas lembranças? minha cabeça em giro. meus olhos em caleidoscópio. o apartamento frio. a chuva pelo vidro. eu sozinha. o ônibus na estrada. a felicidade lá fora. a mulher farta. as roupas dançantes. a redenção. eu elegante e estúpida. olhos de não ver. pé no chão. pálpebras abertas. meus redondos olhos enquadrados trincam perante o pão de açúcar.

a memória matutina do rosto em riso alivia o peso de mim mesma. leveza. todas as curvas do dia são leves, graciosas, desembaraçadas, ágeis. a curvatura dos meus lábios descomplica-me. na folga das retas e dos ângulos vicejam os espaços. tênue ampliação de mim mesma comigo. na curva, tudo se amplia. sentada na cama, movimento-me em direção aos pés. esforço-me. exercito o encurvamento do corpo em posições várias. flexibilizo o tronco e as angulações.

a noite é útero. em posição fetal exerço a renovação. curvilineamente refaço os traçados dentro e fora de mim mesma. o sono embala-me. quando for o tempo dançarei com as linhas um bailado sinuoso. o arqueado das minhas costas pergunta e responde onde estou quando estou aqui. estou comigo.

 

riscos na noite

a noite quente do verão carioca ferve em minhas veias. caminho pela rua, à beira do mar do arpoador. as lâmpadas acendem uma vontade de você em mim. os bares oferecem bebidas e bocas. em qual delas você estará? em meu passo calmo perscruto os ambientes à distância, da outra margem da avenida atlântica. a vida se oferece pulsante dentro dos bares. as falas e os sorrisos indicam a possibilidade de te encontrar. de encontrar num copo de cerveja, num beijo despretensioso e num leve balançar de corpos, ao som de qualquer bossa nova, a luz dos olhos que aguardo. será que os olhos que me bebem são os seus? um risco é sempre o risco, de perder-te ou achar-te.

a brisa balança os meus cabelos e uma onda de desejo invade os meus olhos. olho os olhos à minha volta, as bocas bebem e sorriem, falam e gesticulam incessantemente. o turbilhão de vozes, gargalhadas e música é estéril. exercito e apuro os ouvidos, detetivemente investigo o moço da mesa vizinha. a voz grave derrete minha altivez, vejo-me molemente embalada pela gravidade das palavras direcionadas ao amigo ao seu lado. a voz roça minha pele, a bebida gelada devolve-me ao aqui. é você? o risco é a possibilidade da resposta.

outros olhos me olham e permito. perguntam-me e eu simplesmente consinto a pergunta sem resposta precisa. as retinas e as pálpebras conversam entre risos de olhares, molejos de mãos nos cabelos e gestos de lábios. e você, em que mesa se esconde e quando se revelará?
esboço um sambinha na pista de dança. a cidade do samba pulsa nos pés das cariocas e nos olhos dos homens. é você, que dança comigo e para batendo palmas para me ver sambar? sou requebros, curvas, cabelos e risos ao som do pandeiro.meu corpo esquenta mais que o calor no beijo de malte gelado deixado em meus lábios.

a brisa envolve a noite e eu danço contigo. arrisco-me. onde está o código que decifrarei? na casa do tempo todas as incógnitas são reveladas. eu me revelarei quando for o tempo. haverá tempo?

a noite era tarde quando meu corpo e o seu se arriscaram. um risco líquido e compassado. na translação da terra, na rotação dos dias, o seu olho dirá ao meu o que é. o que será? haverá outras danças? na mutação das luas o meu olho também dirá ao seu o que é. haverá outro beijo de malte gelado? mesmo que não haja, haverá. o sem tempo do agora é silêncio. o aguardo é tempo sem lugar. em que mesa, em que bar, em que rua, cidade ou boate olharei o seu olhar e a lua aquiescerá?

 

calar números e ouvir silêncios?

dia de folga. guardei as pastas, envelopes e relatórios no fundo da mala. o clamor dos números assaltava-me os ouvidos no domingo de sol. fechei, hesitante, o zíper. o rosa dos ipês escorria dos galhos e acetinava a calçada. a porta era passagem e portal. deixar para trás? ir adiante? calar os números? ouvir os silêncios? encontro ou fuga? encontro de quê? fuga de onde, para onde? bato apressadamente a porta e não olho para trás.

conhecer o parque e o brique. redenção. a palavra queria dizer-me algo que ainda não sei. redimir? libertar-se? o táxi leva-me à redenção. ou eu mesma é que, passo a passo, vou em direção a ela? aonde a redenção leva? libertar-me? a pergunta arrebata e surpreende-me. busco o encontro. a libertação é o encontro? como saberei? atravesso o portal do parque. os números e ângulos e retas da minha vida nunca tangenciaram a liberdade. quantas vezes estive na cidade sem ir à redenção? haveria qualquer percentual de divindade nas linhas que cruzam a minha vida? a minha cabeça faz voltas. sacudo-a em não e aceito. as paralelas e perpendiculares assomam em meus olhos.

famílias, casais e grupos envolvem-se na grama do parque. a bebida favorita é companhia certa. as crianças correm e brincam. a gente da cidade é efervescência em meio às árvores, lago e fonte. um casal emo pinta a paisagem em tons de preto. faz escuro no meu peito. preta é a pasta dos relatórios, envelopes e números. ângulos retos e esquadros e linhas dividem minha visão. enquadramento. debato-me entre as retas. quero sair ou ficar? o quadrado atrapalha ver. o que mesmo eu busco entre prender e soltar-me dos traços horizontais e verticais? a imagem fora das retinas? o encontro com você? eu? mim? própria? comigo? atordoamento, vista embaçada, esquartejada.

refaço-me sentada embaixo de uma árvore. onde está você? preciso de seu ombro. estou sentada no chão? estupidamente no chão! as linhas voltam a se embaralhar em quadros. fecho os olhos, respiro. o que me diria se estivesse aqui? relaxar. é o que qualquer pessoa aconselharia. respiro. abro os olhos. as linhas dissipam-se. tiro os sapatos. meus pés contrastam com o verde da grama. a grama vai coçar meu corpo depois dessa vertigem?

acerco-me do que me cerca. o vento leve invade minhas narinas. o calor se deita em minha pele. o verde emoldura meu sentar. meus olhos dilatam. onde guardei minhas retinas que não enxerguei a vida? acaso também deixei de ti ver? quando esquadrinhei minha visão? o verde do chão não coça minha pele. mais uma sensação enquadrada na ausência de sentir? com quantas paralelas e perpendiculares cerquei os dias? o redondo do lago ultrapassa as retas e os esquadros. meu coração pulsa abalando as linhas duras. o que guarda a curvatura das retas?


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