lívia natália

filha de osun, criada nas dunas do abaeté, a escritora baiana tem seu primeiro livro publicado neste ano de 2011. água negra é o premiado pelo concurso literário banco capital. lívia natália descobriu a intimidade com as palavras muito cedo, escreve contos e poesias, ministra disciplinas de teoria da literatura, discute a produção literária contemporânea em seus artigos e ensaios e trabalha com oficinas de criação literária na universidade e em casas de repouso, escolas e ongs de apoio a crianças e adolescentes em situação de risco. leia mais no seu blog outras águas.

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Poema-ebó (pelo 20 de Novembro)

Dono das encruzilhadas,
morador das soleiras das portas de minha vida,Falo alto que sombreia o sol:
Exu!

Domine as esquinas que dobram
o corpo negro do meu povo!
Derrama sobre nós seu epô perfumado,
nos banha na sua farofa
sobre o alguidá da vida!

Defuma nossos caminhos
com sua fumaça encantada.
Brinca com nossos inimigos,
impede, confunde, cega
os olhos que mau nos vêem.

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Exu!

Menino amado dos Orixás,
dou-te este poema em oferenda.
Ponho no teu assentamento
este ebó de palavras!

Tu que habitas na porteira de minha vida,
seja por mim!
seja pelos meus irmãos negros
filhos de tua pele ébano!
Nós, que carregamos no corpo escuro
os mistérios de nossas divindades,
te vemos espelhado nos nossos cabelos de carapinha,
nos traços fortes de nossas faces,
na nossa alma azeviche!

Mora na porteira de nossa vida,
Exu!
Vai na frente trançando as pernas dos inimigos.
Nos olhe de frente e de costas!

Seja para nós o que Zumbi foi em Palmares:
Nos Liberta, Exu,
Laroiê!

Publicado em 20 de novembro de 2011 no blog Outras Águas

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 Água Negra

Chove muito na cidade.
No asfalto betumoso um sangue transparente,
ora de um rubro desencarnado,
ora encardido de um cinza nebuloso,
é vomitado em cólicas
por toda a parte.
Das paredes duras vaza um mais escuro que,
imagino, seja a água mordendo as estruturas.
A água é assim:
atiçada do céu,
infinita no mar,
nômade no chão pedregoso,
presa no fundo de um poço imenso:
a água devora tudo
com seus dentes intangíveis.
Poema retirado do livro homônimo.
“Oriki para osun
O rio se cala,
mas há quem não saiba
que ele é fundo”

Osun Janaína
Descobri que, para mim,
ser mulher basta.
Para puxar véus,
Levantar saias
Pintar as unhas de vermelho feroz –
mesmo que seja só para dizer: para.

Ou para ver a dança des-contínua do seu corpo
sobre o meu (o meu oposto)
Pelo espelho que se emancipa
Das paredes deste quarto
E desta tarde delicada.

Mas sempre ser mulher basta:
Posto que é inteiro e vão,
onda que bate na pedra e despedaça
apenas para voltar inteira
– afogada –
num mar de (in)diferenças
onde cada gota solitária e única
forma um discurso descomposto,
cambiante,
plural:
mesmo quando me atiro sobre esta pedra,
que me rechaça.

Liberdade
Ir e poder entrar.
Não ser revistada,
entrevistada,
revirada.

Não me alisarem os cabelos,
Ou abrandarem meu nariz.
Não me dizerem ser morena
esta pele que herdei retinta.

Africana(mente)
Meus cabelos,
Minha pele,
Meus sonhos
têm raiz profunda:

ela atravessa oceanos,
terras cindidas de partida e chegada,
ela se forja útero de água,
ela se faz palavra que funda mundos
e se expande vigorosa de dentro de mim.

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