na bubuia: elos com elas poetas

eu vou. na bubuia. vamos. no fluxo, junto a quem poeta, junto a quem não está aqui só a passeio. vida não é recreio, você ouve hoje nestes cantos em voz de mulher. e ouve também uma conversa com andrea mascarenhas  e lílian almeida, contando coisas bonitas sobre o grupo de pesquisa em literatura e diversidade cultural: imaginário, linguagens e imagens e sobre suas criações. e assim seguimos: celebrando cerne de palavras no contra-fluxo, à margem da loucura.

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confira a lista de canções e de poemas desta edição:

ciranda à meia noite – texto de andrea mascarenhas lido por ela mesma

sob o sol da noite,
deixo
a turba
espalhar-se, dentro
irmanações intempestivas

antes,
àquela esquina,
apenas fui

ilógica, sigo
os pés
à marcha
ilusória de si mesmos
como caminhos

meu porto é ribeirinho
e não está longe
mas foge
ao coração
que sempre tarda

meia noite, menina,
escuta a calma e
deixa correr pedrinhas infantes
sob teus pés

ilha de todo dia,
espia,
lava alento
nunca adormecido
nesse rio
que banhou
tanto sofrimento

sonha, nossa sinhá cachoeira
e é tanta brisa
qu’inda chora
ecos anoitecidos
eitos de dor
em rio cheio de mar

los secretos del agua – muna zul cd en viaje

coplas quebradeñas – mariana baraj cd deslumbre

confesión del viento – liliana herrero cd confesión del viento

el instrumento – rossana taddei cd sic transit

porém azul – texto de andrea mascarenhas lido por ela mesma

pedras dormem sob águas em movimento . perpétuo chamado de vida . azul quase estelar mergulha em calma . paz submerge . luz brilha por nós entre mundos e solidão . escritos se perdem em todo brilho . enlouquece, esquecimento . trilhas amortecidas morrem em meus segundos divididos . herdeira do que serei, habito um voo . capa.espada sem argumentos . descabido, invento teus enredos em descompasso. música te enaltece e desestabiliza . apenas ser passo em ignota terra . enquanto memória saboto o que não sei . tempo suposto me observa em pressa . do meu tempo.quimera, desobedeço . remota madrugada nos recebe . prévia em dia claro . sustenido por pouco entristecido . sem sentidos, tolos percebidos . pés deslumbrados acolhem esforço infindo . tanto em tão poucos momentos . ilusão atormentada como o fundo de uma noite sentida . senda sem marketing . despede-se da hora que já vai tarde . chá disfarça nossa pálida aceitação do que se impõe. medo perdido invade a melodia . já foi meu . deixo que se molhe a face em água e ais . ausência de lágrimas e amnésia . envolta em brisa, noite se nos encanta e não há canto ou flautas . passos seguem em descaminhos inéditos, sem nós . esqueci luas e firmamentos . outros lumes, eras, se banham agora nessa hora . era uma vez deixou de ser tempo . eterno presente nascísico . instante fogo-fátuo . mirada ilusionista . sal, pra sempre molhado nesse azul em disfarce .

maquillaje – malena muyala cd puro verso

“porque ese cielo azul que todos vemos, ni es cielo, ni azul.
¡lástima grande que no sea verdad tanta belleza!
lupercio de argensola ( 1559-1613)
no…
ni es cierto ni es azul,
ni es cierto tu candor,
ni al fin tu juventud.
tú compras el carmín
y el pote de rubor
que tiembla en tus mejillas,
y ojeras con verdín
para llenar de amor
tu máscara de arcilla.
tú,
que tímida y fatal
te arreglas el dolor
después de sollozar,
sabrás como te amé,
un día al despertar
sin fe ni maquillaje…
-ya lista para el viaje
que desciende hasta el color final-
mentiras…
que son mentiras tu virtud,
tu amor y tu bondad
y al fin tu juventud.
mentiras…
¡te maquillaste el corazón!
mentiras sin piedad…
¡qué lástima de amor!

fênix – poema de lilian almeida lido por ela mesma

para rita santana

no chão, os meus restantes.
estatelei-me no voo.
esfacelada, a altura era o solo.
uma asa esmagada
um pé quebrado
os olhos parados
o tronco desconjuntado
restantes em fragmento do que te dei inteiro.

recolhi as partes.
lavei com lágrimas
sequei com rotos sorrisos.

secreto unguentos de sangue e muco
e cicatrizo os cortes.
suturo as dores com o preto fio dos meus cabelos
para deixar marcado, no corpo da fênix,
a porção mulher que há em mim.

volver a los 17 – mamma soul cd después de vivir un siglo – tributo a violeta parra

manos de mujeres – marta gómez cd musiquita

contemplações de baobá – texto de andrea mascarenhas lido por ela mesma

rastros de silêncio . guardo chave pra abrir tempo . tempestade . ligo rádio e passado me diz que tudo é vento . deixo livro entreaberto na página que ouvirei quando deitar e se os olhos quiserem reescrever o que não sei . sereia e chuva se combinam nos mares que cortam esse sono que não vem, seco . revista nova não dá conta de alma nua, perdida em madrugadas . estalar de dedos . sussurros . maré alta dentro da noite que já foi fria . estatuto de aprendiz se quer incerto, feito algum eu que não existe . desacato se perde na rua direita . são paulo e rio . papel colado à parede lê versos pra mim e não é sonho ou devaneio . palavras escorrem, quase em mangues desprezados quando há palco sem hiatos . recuso o riso de academia e seus ferros pesados, corpo duro . viva a flacidez lírica, que sabe bordar como ninguém linhas azuis de vida acesa . ode ao corpo possível, talhado em músculos de pura ilusão . visto a paisagem barata e tão alta quanto um soneto shakespeariano . vestido esfumado na neblina furtacor se exibe indefinido . cheiro de relva lavada e teus orvalhos sorrateiros . relógio perde-se de mim e não há praças sem bancos por onde ir, sen.hora .

abc – cia cabelo de maria cd baianá

folga das retas e ângulos (fragmento) – texto de de lilian almeida lido por ela mesma

a memória matutina do rosto em riso alivia o peso de mim mesma. leveza. todas as curvas do dia são leves, graciosas, desembaraçadas, ágeis. a curvatura dos meus lábios descomplica-me. na folga das retas e dos ângulos vicejam os espaços. tênue ampliação de mim mesma comigo. na curva, tudo se amplia. sentada na cama, movimento-me em direção aos pés. esforço-me. exercito o encurvamento do corpo em posições várias. flexibilizo o tronco e as angulações.

a noite é útero. em posição fetal exerço a renovação. curvilineamente refaço os traçados dentro e fora de mim mesma. o sono embala-me. quando for o tempo dançarei com as linhas um bailado sinuoso. o arqueado das minhas costas pergunta e responde onde estou quando estou aqui. estou comigo.

curandera curando – paloma del cerro & miss bolivia cd gozar hasta que me ausente

bubuia – céu, anelis assumpção e thalma de freitas cd vagarosa

já que não estamos aqui só à passeio.
já que a vida enfim não é recreio.

eu vou na bubuia, eu vou…

flutuo, navegando sem tirar os pés do chão,
365 dias na missão…

na bubuia eu vou…

subo o rio no contra fluxo,
à margem da loucura,
na fé que a vida
após a morte continua.

eu vou na bubuia, eu vou…

entoo uma toada em dia de noite escura,
na sequência, na cadência, na fissura…

eu vou na bubuia, eu vou…

eu vou suave, bebendo água na cuia.
olho aberto, papo reto,
o peito como bússula.
nenhum receio do lado negro da lua,
que me guia, na bubuia.

eu vou na bubuia, eu vou…

o destino é o mar onde vou me desfazer,
contente a deslizar na correnteza do viver

na bubuia eu vou…
eu vou na bubuia, eu vou…


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