nota de escurecimento, por lívia natália

o poema “quadrilha”, selecionado para publicação no projeto poesias nas ruas de ilhéus, aprovado pela fundação cultural da bahia, setorial de literatura, fundo de cultura, 2014, foi divulgado em busdoor e outdoor pela cidade de ilhéus. depois da reação de grupos que se sentiram ofendidos, o poema, que permaneceria por dois meses, foi retirado. leia abaixo a nota escrita por lívia natália, professora da faculdade de letras, da universidade federal da bahia.

nota de escurecimento

“se palmares não vive mais
faremos palmares de novo!”
(josé carlos limeira)

quando escrevi o poema “quadrilha”, no extremo sentimento pelos mortos do cabula, os meninos do rio de janeiro ainda não tinha sido alvejados por mais de cem tiros. mas amarildo já havia desaparecido e joel, aquele menino, morto. quando escrevi o poema, havia anos que o carandiru com seus 111 mortos já estava quase esquecido. eis o poema:

quadrilha
maria não amava joão,
apenas idolatrava seus pés escuros.
quando joão morreu,
assassinado pela pm,
maria guardou todos os seus sapatos.
(publicado no livro correntezas e outros estudos marinhos, ed. ogums toques, 2015.)

este poema, selecionado para publicação no projeto poesias nas ruas, ilhéus – ba, aprovado pela funceb – fundação cultural da bahia, setorial de literatura, fundo de cultura, 2014, foi divulgado em busdoor e outdoor pela cidade de ilhéus.

desde então, quando a foto do outdoor foi viralizada nas redes sociais, vi a minha poesia e a minha pessoa expostas em manifestações que nascem de uma polarização político-partidária mas que, no entanto, exortam à misoginia, racismo e outras violências.
foram soltas notas de repúdio, inclusive por representações oficiais da polícia militar, sites de notícia deram notas, solicitaram a retirada do out-door, e alguns “formadores de opinião” foram falar contra o poema, contra a poeta e contra o governo.

primeiramente, afirmo que, entre a esquerda e a direita político-partidária, eu continuo sendo uma mulher negra, portanto, a mim pouco importa a guerra político-partidária que se quer montar, mas não admito que o meu poema, a minha obra e a minha imagem sejam utilizadas para um fim tão mesquinho. pede-se que respeite a instituição, e eu, como cidadã, exijo respeito.

desde a década de oitenta do século passado não há censura oficial neste país, portanto, tentar silenciar a minha voz é um ato ilegal, que atenta contra os direitos do cidadão. como se não bastasse a sistemática exposição do meu nome, imagem e obra, sem que em nenhum momento tenha-se me procurado para que eu pudesse me posicionar, tenho recebido uma enxurrada de mensagens, declarações, recados e e-mails que são profundamente agressivos e que buscam me inspirar medo, que buscam me fazer ter vergonha do que escrevi, e que tentam desmentir o que a poesia representou.

gostar ou não de uma obra de arte assiste apenas a quem a recebe, mas a censura não cabe! o poema e o outdoor, como se registra no texto de autorização por mim assinado ao projeto poesia nas ruas, deve ser mantido por dois meses em exposição.
tenho pela consciência de que em todos os lugares há pessoas que desempenham o seu trabalho com compromisso, humanidade e competência, no entanto, não podemos escamotear a verdade endossada pela anistia internacional em relatório de 2015. muitos homens e mulheres honradas fazem parte da corporação, imagino, sem demagogia, inclusive que seja a maioria. no entanto, apesar de o espírito corporativo manifestado ser natural, o corpo da instituição que foi forjada para nos proteger precisa exercitar a auto-crítica e assumir as suas limitações. num amplo número de pessoas que trabalham demais, não são suficientemente remunerados, têm equipamentos obsoletos, e não recebem um verdadeiro treinamento para gerenciar crises e confrontos, é impossível assegurar que todos saberão como agir no cotidiano do seu trabalho.

a responsabilidade disto deve ser partilhada entre todos os níveis das administrações governamentais.
o saldo, no entanto, nós conhecemos. pensa-se resolver a violência com a redução da maioridade penal, construindo mais presídios ou dando mais armas à polícia. isto é apenas sintoma da inabilidade em gerenciar a segurança pública, e resulta na sistemática morte de pessoas inocentes, em sua maioria jovens negros.

este poema apenas diz uma verdade que todos nós engolimos e sua ampla recepção apenas reforça a sua força e a força da literatura, numa sociedade tão desprovida de sensibilidade. eu não quero temer a farda de homens e mulheres que aí estão para nos proteger, os homens e mulheres negras que são a maioria da população baiana, e grande alvo das várias violências institucionalizadas também não!

profa. dra.lívia natália
poeta
adjunta da universidade federal da bahia


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