poema de helena ferreira

nascida em belo horizonte, minas gerais, helena ferreira é escritora, feminista e palestrante. em 2016, ela publicou o primeiro livro intitulado  um poema para helena, em que reúne poesias escritas ao longo de três anos. ficou conhecida nas redes sociais depois do sucesso do poema “sou puta”, que retrata o machismo que atinge as mulheres.

violada aos 16

hoje acordei desejando nunca mais acordar
o sol brilha lá fora
mas aqui dentro faz tanto frio.
me tocaram
da pior forma que se pode tocar uma mulher.
era uma noite de festa
dança
paixão
juventude
mas tudo se perdeu num copo
num drink
num gole.
meu namorado me dopou
me drogou.
lembro das primeiras conversas
do primeiro beijo
do primeiro abraço.
eu pensava que naqueles braços
eu iria encontrar proteção.
eu estava enganada.
o crime da noite passada não tem perdão.
na minha cabeça as luzes brilhavam
tudo girava
escutei vozes
risadas
deboche!
quando acordei estava pelada
penetrada
violada
30 bichos em cima de mim
30 monstros
30 bichos papões
30 pesadelos
30 homens.
eu me senti pequena
indefesa
chamava por minha mãe
mas ninguém me escutava
ninguém prestava atenção em mim
eles devoravam meu corpo
me machucavam cada vez mais
e quanto mais eu chorava
mais eles gostavam
meu pai não estava lá pra me defender
eu queria correr
fugir para embaixo da minha cama
e me esconder.
apaguei.
acordei jogada num canto
sem roupa
sem alma
sem vida
apenas dor.
uma dor tão forte
que eu não conseguia nem chorar.
o bicho papão tinha ido embora
o monstro não estava mais ali
a legião de demônios havia desaparecido
os homens foram embora.
mas, eu ainda estava no inferno.
abraçar minha mãe já não traz alívio
a proteção do meu pai não pode me salvar mais.
eu posso me esconder embaixo da cama
eu posso me esconder em qualquer lugar
a dor não vai passar
não vai parar
não vai sumir.
minha alma foi estuprada naquela noite
meu coração foi penetrado
minha mente está cheia de gozo
minha boca está com um gosto amargo.
sei que a vida vai continuar
eu vou estudar
trabalhar
talvez eu volte a sorrir
meu corpo vai sarar
a ferida vai cicatrizar
quem sabe eu volte a namorar.
mas, a minha alma e o meu espírito
foram levados
foram roubados
dilacerados
viraram cinza.
quando um homem estupra uma mulher
ele está estuprando uma menina
uma moça
uma mãe
uma filha
uma irmã
uma avó.
eu clamei por deus
clamei por meus pais
clamei por socorro
mas os monstros não tem ouvido
não tem alma
não tem coração.
eles estão por toda parte
no ônibus
no metrô
no mercado
na escola
no trabalho
dentro de nossa casa.
mas, quem vai nos salvar?
eu não sei.
prazer, meu nome é mulher
e eu morri aos 16.

helena ferreira
em homenagem a todas as mulheres do mundo!
a dor de vocês também é minha.


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