poemas de adélia prado

nasceu em divinópolis (brasil) em 1935. poetisa, filósofa e professora, ligada ao modernismo o surgimento dela na literatura brasileira em 1976 representou a revalorização do feminino nas letras. algumas de suas obras são: bagagem (1975), o coração disparado (1978), a faca no peito (1988), o homem da mão seca (1994), quero minha mãe (2005), quando eu era pequena (2006), a duração do dia (2010).

 

sedução

a poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel o seu discurso esdrúxulo.
me abraça detrás do muro, levanta a saia pra eu ver,
amorosa e doida.
acontece a má coisa, eu lhe digo, também sou filho de deus,
me deixa desesperar.
ela responde passando a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar, fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga, aproveito pra me safar.
eu corro ela corre mais, eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
me pega a ponta do pé e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
é de ferro a roda dentada dela.

enredo para um tema

ele me amava, mas não tinha dote,
só os cabelos pretíssimos e um beleza
de príncipe de estórias encantadas.
não tem importância, falou a meu pai,
se é só por isto, espere. foi-se com uma
bandeira e ajuntou ouro pra me comprar
três vezes.
na volta me achou casada com d. cristóvão.
estimo que sejam felizes, disse.
o melhor do amor é sua memória, disse meu pai.
demoraste tanto, que…disse d. cristóvão.
só eu não disse nada, nem antes, nem depois.

poema começado no fim

um corpo quer outro corpo.
uma alma quer outra alma e seu corpo.
este excesso de realidade me confunde.
jonathan falando: parece que estou num filme
se eu lhe dissesse você é estúpido ele diria sou mesmo.
se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear eu iria.

simplesmente amor

amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é a coisa que mais quero
por causa dele falo palavras como lanças
amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é a coisa que mais quero
por causa dele podem entalhar-me: sou de pedra sabão.
alegre ou triste amor é a coisa que mais quero.

exausto

eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
semente.
muito mais que raízes.

tempo

a mim que desde a infância venho vindo,
como se o meu destino,
fosse o exato destino de uma estrela,
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
tomo o nome de deus num vão.
descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem,
amaria chamar-se fliud jonathan.
neste exato momento do dia vinte de julho,
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
quarenta anos: não quero faca nem queijo.
quero a fome.


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