poemas de carlos pronzato

o argentino carlos pronzato é escritor, teatrólogo, cineasta e ativista. por seu documentário madres de plaza de mayo, memoria, verdad, justicia ganhou alguns prêmios, entre eles: o prêmio especial do júri na xxxvi jornada internacional de cinema da bahia (2009). pronzato escreveu 19 poemas em homenagem aos trabalhadores rurais que foram assassinados durante um confronto com a polícia militar em eldorado dos carajás (pará) em 17 de abril de 1996.

 

poema 2

As cercas
Crescem com o dia
Demarcam
A imensidão
Do latifúndio
E calam
O murmúrio
Das sementes
Nas madrugadas
O camponês
Arma o coração
Da derrubada
O arame farpado
Não deterá jamais
O grito
Da aurora
Ocupada

 

poema 6

A lua ilumina
A extensão
Do latifúndio
A terra encarcerada
Chama seus guerreiros
Aguarda noturna
Seus filhos
De punhos erguidos
Seu grávido silêncio
Cresce
No grito
Que nascerá amanhã
Infinito
A terra cultivada
É um sulco
Na memória
Recorda ao Homem
Seu estado continuo
De semente
Seu instante
Seu fim
E o seu principio.

 

poema 7

Escorre a terra bruta
Entre os dedos rudes
Do camponês/artista
Deslizam
As sementes
Soprando vida
No antigo latifúndio
Improdutivo
Como o escultor
Seu bloco de pedra
Suas mãos fecundam
O relevo da terra
Tornam a matéria
A arte milagrosa
Do alimento
Esse pedaço
De pedra
De terra
Em breve
Será pão
Será sustento
Escultura
Da terra lapidada
A partir de uma semente.

 

poema 8

Fileiras de eucaliptos
Asfixiam o horizonte
Os tanques
Das multinacionais
Esmagam a natureza
Com a indústria
Da celulose
A tarde espalha
Seu cântico de resistência
No som agudo e afiado
Dos facões
Fileiras de sem terras
Enfrentam
A invasão
Das empresas escandinavas
A intifada camponesa
Resiste
A machadada
Respira fundo
A umidade da terra
Molhada.

 

poema 12

Terra
Aguda flor
Em infinito parto
Mestiça e nômade
Pólen que alimenta
Seu ventre
Sempre aguarda
Uma semente
A terra
É como um berço
Seu embalo
É o sopro
Do universo.

 

poema 5

Oh Liberdade!
Espalha no sereno
As armas
Da ocupação

Somos cúmplices
Das flores

Abre a facão
Uma clareira
No tenebroso
Latifúndio

Somos cúmplices
Dos pássaros

Assobia para nós
Aquele cântico
Infinito dos rebeldes

Somos cúmplices
Do vento

Oh Liberdade!
O teu coração
Tem o cheiro
Da terra
Do outro lado
Da cerca.

 

fonte: http://www.reformaagrariaemdados.org.br/sites/default/files/19%20POEMAS%20SEM%20TERRA%20-%20Carlos%20Pronzato.pdf


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