poemas de carlos pronzato

nascido em buenos aires, argentina, carlos pronzato é escritor, teatrólogo, cineasta e ativista. morando no brasil ele se formou em direção teatral na ufba- universidade federal da bahia. por seu documentário madres de plaza de mayo, memoria, verdad, justicia, ganhou alguns prêmios, entre eles: o prêmio especial do júri na xxvi jornada internacional de cinema da bahia (2009). carlos escreveu 19 poemas em homenagem aos trabalhadores rurais que foram assassinados durante um confronto com a polícia militar em eldorado dos carajás (pará) em 17 de abril de 1996. selecionamos alguns destes poemas e você pode conferi-los aqui.

 

poema 3

Quem te dará
A terra
Se não forem
Tuas mãos?

Quem te dará
A terra
Se não forem
Teus braços?

Quem te dará
A terra
Se não fores tu
Trabalhador do campo
Que semeias
Com suor
E sangue
O silêncio
Que geme na terra
O teu canto?

Quem?

 

poema 4

Teus pés
Tocaram
A terra ensangüentada

Teu coração
Decidiu
Tomar as armas

Tua cabeça
Ajusta
O alvo.

 

poema 5

Oh Liberdade!
Espalha no sereno
As armas
Da ocupação

Somos cúmplices
Das flores

Abre a facão
Uma clareira
No tenebroso
Latifúndio

Somos cúmplices
Dos pássaros

Assobia para nós
Aquele cântico
Infinito dos rebeldes

Somos cúmplices
Do vento

Oh Liberdade!
O teu coração
Tem o cheiro
Da terra
Do outro lado
Da cerca.

 

poema 6

A lua ilumina
A extensão
Do latifúndio

A terra encarcerada
Chama seus guerreiros
Aguarda noturna
Seus filhos
De punhos erguidos

Seu grávido silencio
Cresce
No grito
Que nascerá amanhã
Infinito

A terra cultivada
É um sulco
Na memória

Recorda ao Homem
Seu estado continuo
De semente

Seu instante
Seu fim
E o seu principio.

 

poema 9

As mãos
Afundam seu suor
Na terra

A semente
Pergunta:
“Aonde estão
As outras mãos
Tantas mãos
Que querem
Plantar?”

“Presas
Nas correntes do latifúndio”
Respondem
As mãos
Que podem
Plantar

“E essas correntes
São tão indestrutíveis
Que milhões de trabalhadores
Não as podem quebrar?”
Disse a semente
Antes de mergulhar
Definitivamente

A resposta
Foi um eco de silencio
Que perdura…
E a semente
Desde o fundo
Da terra
Ainda pergunta:
“Até quando?”.

 

poema 17

Abertas
Na imensidão dos campos
Feridas
E mortes
Sem terra e sem justiça
Como o sangue
Derramando
Do vermelho das bandeiras
Marcas indeléveis
Nas estradas
Ocupadas pelas marchas
Esparzidas como apelos
Para a luta
Gritam
Desde os olhos
Camponeses desarmados
Detidos nos jagunços
Que disparam
O sangrento latifúndio
Gritam
Seu grito desgarrado
A espera do eco
Da memória
E da justiça restituída.

 

Fonte: https://goo.gl/oifnxe


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