poemas de carlos tiago haki’y

descendente do povo  sateré-mawé, carlos tiago haki’y é escritor e poeta. em 2012, haki’y foi vencedor do concurso tamoios de textos de escritores indígenas. awyató-pót: histórias indígenas para crianças é um de seus livros. abaixo, conheça alguns de seus poemas.

 

filhos da selva

sou rio
sou floresta
sou sonhos de mil nações.
sou filho do mato
e algumas belas canções.

as águas do tempo
ensinam os recado de minhas tradições
cultura de índio
contando a história desse chão.

aprendi a ler os recados das chuvas
a conversar com os pássaros
a entender o canto o vento

por isto este sonho de floresta
por isso minha raiz não de lamento
por isso luta pelo chão
que ainda me resta
que vive em mim
e me ensina a ser
índio verso e coração.

 

 

brisas de lua

navegando nas águas do tempo
encontramos floresta de tradição
as brisas de muitas lutas
luas e trovão.

singrando as nuvens
colhemos sonhos, desenhamos
festas de tradição

construímos alguidares
e nos emolduramos neste chão.
remando nos grandes rios
nos tornamos senhores das águas
pescadores de esperanças
e ficamos parte da mata
bichos de muitas tradições
homens vestindo pela pele da sobrevivência
que sabe sentir a chuva lá longe
que sabe reconhecer o grito da selva
e a imensidão das estrelas.

filho da floresta somos
pintados de urucum
dançamos ao redor da fogueira
o olhar do pajé tudo incendeia
e de sabedoria nos encandeia.

e assim.
a mata vai sobrevivendo em nós
nos ajudando a cantar em uma só voz
um amor de índio que não tem fim

 

espelho de estrelas

grávidas de poesia

as águas levam
o canto precioso do vento
onde todos os calores descansam
do sonho cadenciado:
certo mundos, serenatas de chuva.
no meio do rio
o pescador namora a kunhã desenhada nas nuvens,
vai pegar um peixe bem grande para lhe presentear;
uma gaivota planando o acompanha,
o silêncio vai em sua asa
e o infinito do seu olhar.
botos se assustam e despertam
o sonho esquecido no profundo sono do rio.
águas do andirá:
efeito de tempo e mistérios,
histórias cheias de dor,
ondas cantando amor,
mundo de criações que se aconchegam
nas curvas das misteriosas praias
imaginações, espelhos de estrelas,
beleza decifrando o segredo das nuvens.

 

fonte: https://issuu.com/grupo.leetra/docs/leetra_vol2/80


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