poemas de eliane potiguara

eliane potiguara (origem étnica: potiguara) é escritora, poeta, ativista, professora, contadora de histórias e empreendedora social. foi nomeada embaixadora universal da paz em genebra e participou da elaboração da declaração universal dos povos indígenas/onu/ por 6 anos na mesma cidade. o pássaro encantado (2014), a cura da terra (2015), o coco que guardava a noite (2012) e metade cara, metade máscara (1º edição – 2004; 2º edição – 2018) são alguns de seus livros. abaixo, conheça alguns poemas da escritora.

 

 

brasil

que faço com a minha cara de índia?

e meus cabelos
e minhas rugas
e minha história
e meus segredos?

que faço com a minha cara de índia?

e meus espíritos
e minha força
e meu tupã
e meus círculos?

que faço com a minha cara de índia?

e meu toré
e meu sagrado
e meus “cabôcos”
e minha terra

que faço com a minha cara de índia ?

e meu sangue
e minha consciência
e minha luta
e nossos filhos?

brasil, o que faço com a minha cara de índia?

não sou violência
ou estupro
eu sou história
eu sou cunhã
barriga brasileira
ventre sagrado
povo brasileiro

ventre que gerou
o povo brasileiro
hoje está só …
a barriga da mãe fecunda
e os cânticos que outrora cantavam
hoje são gritos de guerra
contra o massacre imundo

 

 

identidade indígena

nosso ancestral dizia: temos vida longa!
mas caio da vida e da morte
e range o armamento contra nós.
mas enquanto eu tiver o coração acesso
não morre a indígena em mim e
e nem tão pouco o compromisso que assumi
perante os mortos
de caminhar com minha gente passo a passo
e firme, em direção ao sol.
sou uma agulha que ferve no meio do palheiro
carrego o peso da família espoliada
desacreditada, humilhada
sem forma, sem brilho, sem fama.
mas não sou eu só
não somos dez, cem ou mil
que brilharemos no palco da história.
seremos milhões unidos como cardume
e não precisaremos mais sair pelo mundo
embebedados pelo sufoco do massacre
a chorar e derramar preciosas lágrimas
por quem não nos tem respeito.
a migração nos bate à porta
as contradições nos envolvem
as carências nos encaram
como se batessem na nossa cara a toda hora.
mas a consciência se levanta a cada murro
e nos tornamos secos como o agreste
mas não perdemos o amor
porque temos o coração pulsando
jorrando sangue pelos quatro cantos do universo.
eu viverei 200, 500 ou 700 anos
e contarei minhas dores pra ti
oh! identidade
e entre uma contada e outra
morderei tua cabeça
como quem procura a fonte da tua força
da tua juventude
o poder da tua gente
o poder do tempo que já passou
mas que vamos recuperar.
e tomaremos de assalto moral
as casas, os templos, os palácios
e os transformaremos em aldeias do amor
em olhares de ternura
como são os teus, brilhantes, acalentante identidade
e transformaremos os sexos indígenas
em órgãos produtores de lindos bebês guerreiros do futuro
e não passaremos mais fome
fome de alma, fome de terra, fome de mata
fome de história
e não nos suicidaremos
a cada século, a cada era, a cada minuto
e nós, indígenas de todo o planeta
só sentiremos a fome natural
e o sumo de nossa ancestralidade
nos alimentará para sempre
e não existirão mais úlceras, anemias, tuberculoses
desnutrição
que irão nos arrebatar
porque seremos mais fortes que todas a células cancerígenas juntas
de toda a existência humana.
e os nossos corações?
nós não precisaremos catá-los aos pedaços mais ao chão!
e pisaremos a cada cerimônia nossa
mais firmes
e os nossos neurônios serão tão poderosos
quanto nossas lendas indígenas
que nunca mais tremeremos diante das armas
e das palavras e olhares dos que “chegaram e não foram”.
seremos nós, doces, puros, amantes, gente e normal!
e te direi identidade: eu te amo!
e nos recusaremos a morrer
a sofrer a cada gesto, a cada dor física, moral e espiritual.

nós somos o primeiro mundo!

aí queremos viver pra lutar
e encontro força em ti, amada identidade!
encontro sangue novo pra suportar esse fardo
nojento, arrogante, cruel…
e enquanto somos dóceis, meigos
somos petulantes e prepotentes
diante do poder mundial
diante do aparato bélico
diante das bombas nucleares

nós, povos indígenas
queremos brilhar no cenário da história
resgatar nossa memória
e ver os frutos de nosso país, sendo dividido
radicalmente
entre milhares de aldeados e “desplazados”
como nós.

 

 

criador, a identidade e o guerreiro

escorria-me das veias doentes
um sangue ainda quente
como percorre as águas do norte
levando pra bem longe
as ervas daninhas

onde estavas identidade adormecida ?
sofrida nas noites ensangüentadas
anestesiada ou morta
ou apenas me contemplando
ao pé da porta?

mirava-me calada, identidade amiga
mas vieste a mim, pelas mãos do criador
fruto das atenções da luta
de suas mãos solares
de olhares ternos e carinhos puros

quem tu és identidade?
que secretos poderes tens,
que me matas ou me revives
que me faz sofrer ou me faz calar
quão mistérios tu trazes na alma?

e quem é você doce guerreiro salvador das vidas?
por quantos sangues lutou para estancar
quantos curumins fez brotar
doce amante de mil formas a me encantar

vamo-nos embora – nós três – agora
tu, eu e a identidade caminhante
só que cada um pro seu lado
porque minha identidade pra renascer
a qualquer instante
basta um fio de luz
uma gota mínima de tolerância
ou uma esperança em seu semblante.
porque só um fogo eterno
o útero de meus avós
pra tornar minha cidadania decente.

nesta noite somos todos iguais
bom-dia sol! nesta noite eu renasci.
vi brilhar a luz em mim
num carapinã que aos meus ouvidos
zumbia o futuro de um colibri.

canto teu primeiro beijo
nas asas de uma imensa arara
preparo o sagrado beijú
pra te fazer delirar num calor primeiro

pouco a pouco essa coisa louca
vai-me tomando feito anhangá
és tu que me cheira
que me morde
que me beija
que me penetra até sangrar

corre-me nas veias quentes
o delírio que me rouba a paz
agonizo-me inteira!
enrijeço-me solteira!
é tua boca que me suga a fonte sagaz…

aqui sob o troco amazônico
grita forte – liberto – atônico
o velho ancestral
um bruxo das matas
dos rios
dos lagos.
me traz uma cana caiana
e me diz que é pra quem ama

me entrega um atobá
e diz que um homem honesto
de olhos claros – guerreiro
repousa enfeitiçado
porque nele começa o primeiro reinado

ao bruxo, lhe disse o rei astuto
acordando dos sonos matinais:
que nas asas do pitiguary
viajaria no âmago das matas árduas
e traria – rápido – o bálsamo da história
e traria – ríspido – a verdade nos matagais.
o rei – o meu rei amante – ainda sussurrando
levantou áspero e sumiu pelos ventos
nunca mais se bateu olhos nele, no entanto…
mas ele deixou marcado nas pedras errantes
um princípio de vida pros ilustres e banais:
“nesta noite somos todos iguais”.

 

fonte:

http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br/2012/04/eliane-potiguara-escritora-poeta-e.html

http://www.elianepotiguara.org.br/sobre.html#.WsqlDdTwbIU


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