poemas de jade bittencourt

Jade Bittencourt tem 22 anos e é estudante de Letras- Espanhol da Universidade Federal da Bahia. Participa do Coletivo Pixote fazendo oficinas e performances “poeliticas” em Salvador, pois acredita que arte e militância andam juntas. Sua poesia conta histórias captadas nos lugares por onde passa, com foco especial na afetividade como parte indispensável nas lutas. Feminista e lésbica, acredita que quantos mais mulheres escrevendo sobre suas vivências e ideias melhor. Tem como principal fonte de inspiração poetas  como Gioconda Belli e Eduardo Galeano. Jade Bittencourt  participará do sarau latitudes na celebração dos nove anos do projeto  Latitudes Latinas.  Outras informações, clique aqui.

 

Visíveis

Sonhei que havia pétalas de borboleta
em tua mão esquerda
e que o vento oscilava
cada carícia silenciada
como asas de amor

(perfeitas)

Eu chamava o poema pelo teu nome
em cada sílaba
o tom é a tua cor
o som é a tua voz
reverberando.

Nunca mais queria falar “a pessoa”
quando citava esses versos
com destinatário.
Nem me perguntar
se tem algo errado
se nasci com defeito
quebrada
por querer caber inteira
no abraço de uma mulher.

Sonhava andar contigo de mãos dadas
por qualquer rua desta cidade.
Nitidamente respeitadas.
Visivelmente amadas.

 

Vila Operária São Salvador, 2015

Na vila operária
a menina
capturou a palavra.

Empinou uma arraia
miníma
feita de verso e brisa.

Lá na minha vila
a menina fez maravilhas.
Libertou a matéria incorpórea
dos sorrisos matutinos.
Fez de conta que era o sol.

Agora todo verbo cansado
se areja.
Depois do serviço
todo jeito calado
verseja
por si só.

 

Bilhete debaixo da porta

Pessoas aéreas não sabem partir.
Pairam
planam
o vento leva.
Mas pessoas aéreas não sabem partir.
“adeus”
“vou ali”
“não sei se volto”
Nunca dizem.
Desconhecem o tom da despedida.
Lenços molhados de água e minério
que bailam no cais.
Portas que se fecham
como se nunca antes abertas
cerram sem fazer ruído
no silêncio de quem está partindo.
Ficam, por distraídas.
Vão, com pouca ou nenhuma bagagem
esquecendo de propósito
coisas íntimas na saída.


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