poemas de joão de moraes filho

nascido em 1977 em cachoeira, no recôncavo baiano, em 2004 ganhou o prêmio braskem de literatura na categoria poesia com o volume pedra retorcida. desse livro vamos compartilhar alguns poemas e também um vídeo da participação dele no 1º festival latitudes latinas.


pedra retorcida

durante algum tempo,
hesitei abrir aquela porta.

o sentido de toda cidade
estava atado, como um nó,
lá dentro. talvez fosse
o que jamais procurasse:
o sentido das coisas
explicadas por trás das portas.

algumas ruas também
hesitei atravessar.
eram incansáveis e longas,
como as noites brincadas
lá fora, onde tudo mais cabia.

em verdade,
nada procurava
além de um pequeno gole
guardado ou esquecido
por trás daquela porta verde:
sem trancas, maçanetas e levemente arranhada
com a dor de abri-la.

os olhos esverdeados
acompanhavam a inquietação do vento
se infiltrando pela porta exilada
com quem fala: ó de casa!

(as ruas atravessam o tempo não vencido.)

aquela porta que hesitei abrir
largou mão de sua fronteira
e deu lugar a janelas
que me assombram pacientes,
até que o frio as feche novamente.

faz frio por detrás das portas retorcidas;
o outro nos decifra,
enquanto se esconde.

engenho vitória

um silêncio ressoa cá dentro.
talvez alguma faísca infantil
calasse o risco da margem esquerda dessa mão
calejada em favor do tempo.

chamam caminho,
a queimadura esticada no chão
de um canavial verde-cinza renovado.

não que se queira,
mas esse cheiro fumacento de labuta
não escolhe estações.

hermano

ao puro cubismo de um paraguaçu legítimo

essas sombras luminosas
tecem a noite escondida
sobre a moldura da igreja do amparo
onde meninos velam cinzas
que esmaecem e atritam a morte
com o tempo pintado
num sobretom clareado de azul.

projeção cachoeirana em 16mm

i
por baixo dos tapetes
escorrem versos cadenciados
de rotina concreta
enquanto o ano encerra quatro estações.

ii
lá fora, a procissão carrega um corpo nu
sem códigos de barras nem etiquetas azuis.

iii
exilado,
fujo em barquinhos de papel
jogados, em dias de chuva,
no filete de uma lágrima.

iv
olhando em janelas,
lembro das felicidades,
baudelaire, narlan,
aquele homem no bar do horizonte
com braços abertos e a felicidade do mundo,
num milagre antecipado.

v
todos os sóis nascem pontualmente
em portos de margens estreitas
no exprimido das cidades.

vi
… fujo fingindo-te amor,
para não morrer dizendo não.

asteróide b612

certas loucuras
me vêm em bolinhas de gude.

não acredito na lucidez
dos homens que não doem.

Fuente: www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet118.htm


compartilhe!

  • Facebook
  • Twitter
  • Google Plus
  • RSS
  • PDF
  • Email