poemas de karina rabinovitz

Karina Rabinovitz é poeta. Trabalha em parceria com a artista Silvana Rezende desde 2005, experimentando e realizando interações entre poesia e artes visuais, criando livros-objetos, instalações audiovisuais, objetos poéticos e intervenções urbanas. Tem 5 livros de poemas publicados, mas é que eu não sabia que se pode tudo, meu Deus! (2014), O LIVRO de água (2013), poesinha pra caixinha [de fósforo] (2012), livro do quase invisível (2010) e de tardinha meio azul (2005). Participa da coletânea Autores Baianos – um Panorama (2013), com 5 poemas traduzidos para o espanhol, inglês e alemão.

currículo

meu nome eu mesma.
meu endereço em mim.

meu cadastro de pessoa física este corpo,
que dentro é céu e é jardim.

meu registro geral não foi registrado
e desde meu nascimento,
numa quarta-feira de cinzas,
nutro certo encantamento,
por tudo que não é numerado.

meu telefone anda ocupado,
uma família de pássaros fez um ninho
bem no fio da minha linha
desde então, ali só se aninha
o canto de uma mãe que espera.
pra falar comigo,
só mesmo depois da primavera,
quando do nascimento do novo passarinho.

minha formação profissional
segue um caminho
amador.
insisto no amor.

minhas atividades atuais:
pensar na vida
e uma corrida sem fim à beira-mar…
encontrar saídas e
encontrar entradas,
para essa vontade desmedida
de viver, de amar.

por fim, minhas referências pessoais,
é melhor que eu não diga
ou que você pergunte a ninguém…
elas serão sempre mais.

mais verdadeiro
é que você descubra,
na convivência comigo,
meu tempero,
minha loucura,
minha ternura,
meu desassossego…

então?
é meu, o emprego?

(karina rabinovitz, livro do quase invisível)

a praia com clarice

era 1977
Clarice vestia a noite com 6 luas cheias
nos encontramos caminhando
dentro da água
ela saindo, eu entrando

nossos olhares cruzaram
uma alegria fatal
alegria sem sorrir.
Clarice com as conchas
das mãos cheias de água
me deu goles grandes de mar

deixamos nossos olhares ao sol
endurecendo de sal
e ela me disse,
não aguentava ficar
vendo pessoas demais
falando demais
dizendo mentiras.
concordei.

o mar lhe impôs resistência
à saída
mas sua proa avançou
Clarice tomou rumo despedida
deixou um estado agudo
de felicidade boiando
entre nós
e foi cumprir uma coragem.

era 1977
Clarice Lispector e eu
nos cruzamos na praia.

(karina rabinovitz, “O LIVRO de água”, P55 Edições, 2013)


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