poemas de paulo leminski

leminski nasceu em 1944 em curitiba (brasil). foi escritor, poeta, crítico literário e professor. algumas de suas obras são: curitiba, etcetera (1976), polonaises (1980), não fosse isso e era menos/ não fosse tanto e era quase (1980), tripas (1980), caprichos e relaxos (1983) e aviso aos náufragos (1997) entre outros.

bem no fundo

no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

dor elegante

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
com se chegando atrasado
chegasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa, um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios, édens, analgésicos
não me toquem nesse dor
ela é tudo o que me sobra
sofrer vai ser a minha última obra

invernáculo

esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
quem sabe maldigo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
esta não é minha língua.
a língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
o dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

o que quer dizer

o que quer dizer diz.
não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
o que quer dizer, diz.
só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.

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