poemas de rené depestre e outros autores haitianos

rené depestre

escritor, poeta, ensaísta haitiano, rené depestre (1926) foi também ativista do movimento negro. viveu exilado em cuba durante a ditadura duvalier. foi o fundador da “Casa de las Americas publishing house” instituição que promove o intercâmbio artistico e cultural de cuba. recebeu o prêmio da société des gens de lettres (ldms), da frança, de literatura pelo conjunto do seu trabalho.

 

 

minério negro

quando seco pelo sol o suor do índio
esgotou-se
quando a febre d’ouro drenou a derradeira
gota de sangue índio
varrendo do entorno das minas d’ouro todo índio
nos voltamos ao veio muscular d’áfrica
para garantir a emersão da miséria
então começou o assalto à infinda riqueza
da carne negra
então começou o desordenado ataque ao
radiante esplendor do corpo negro
e toda a terra retumbou ao retinir do alvião
na densidade do minério negro
e tudo bem se químicos não pensassem em meios
de obter uma preciosa liga
do metal negro
tudo bem se as damas não sonhassem com batedeiras
de cozinha em negra do senegal serviços de chá
em maciço negrinho das antilhas
tudo bem se um pároco audacioso não prometesse à sua
paróquia
um sino soldado
na sonoridade
do sangue negro
ou se algum valente capitão
não talhasse sua espada
no ébano mineral
ou ainda se algum bravo papai noel
não sonhasse soldadinhos
em chumbo negro
para sua anual visita.
toda a terra retiniu ao abalo das brocas
na entranhas de minha raça na
jazida muscular
do
homem negro.
eis os numerosos séculos que
duram a extração
das maravilhas
desta raça.
ó tálamos metálicos do meu povo
minério inesgotável do rocio humano
quantos piratas exploraram suas armas
as profundezas obscuras de tua carne
quantos flibusteiros abriram caminhos
pela rica vegetação
de clarezas de teu corpo
espalhando teus anos de troncos mortos
e poças de pranto
povo despojado povo todo assim revirado
como a terra
lavorada
povo devastado para o enriquecimento das grandes feiras
do mundo
amadureces teu grisu no segredo de tua noite corporal
ninguém mais ousará lançar canhões
e moedas de ouro no negro metal de tua cólera em cheia!

 

 

uma definição de poesia
                                  a jorge amado

a poesia é nosso pai que chega à noite,
sob uma chuva torrencial, e que nos canta
uma lastimosa canção composta para uma
colherzinha de prata.
nosso pai queria cessar a chuva de setembro com uma
              colherzinha, e a chuva revirou seu espírito como
            uma calça velha.
a poesia é:
            um pai haitiano que perde a razão
            por uma colherzinha na canção
            sob uma chuva que cresce com raiva
            ao pé de nossa infância!

 


anthony phelps

nascido em porto príncipe no ano de 1928, o escritor antonhy phelps foi cofundador do grupo poético “haití littéraire” em 1962. dentre sua obra destaca – se  “méme le soleil est nu”.

 

poema (versão de Lazlo Moussong)

pero dónde pero dónde
adónde se va a retumbar la tormenta
pero dónde pero dónde
adónde se va a aullar el viento
viento revocador tumbador de estrellas
había una vez una ciudad
había una vez un país
cuando la boca como luna soñadora
esconde la cara bajo las palabras
cuando la vida en ropas de príncipe
voltea la espalda a la ventana
hasta el sol
hasta el sol está desnudo
había una vez un país
había una vez una ciudad
pero dónde pero dónde
pero dónde
mi memoria tiene tanto dolor
de garganta

 


jacques viau

viau (1942) foi um poeta domínico- haitiano. Viveu a maior parte da sua vida em santo domingo, onde sua família refugiou- se após perseguições políticas. foi professor de francês e escritor vinculado ao movimento “arte y liberación” do pintor silvano lora.

 

nada permanece tanto como el llanto vii

hemos ido acumulando corazones en nuestro corazón,
palabras en nuestra voz quebrantada por azadones.
hemos dejado huellas por todos los caminos
y algunos de nosotros ya no estamos.
hemos ido de manos con las sombras.
nuestro andar es un grito estacionado.
por cada paso, un día que transcurre.
por cada palabras, mil palabras que vocifera la prole.
¿qué será de nosotros después de esta larga travesía?
poco importan si el mármol o la piedra eternizan
nuestro corazón de húmedo barro.
nos basta con que nuestra voz perdure en la voz
del amigo, en la del compañero de rutas que nos tendió
la mano cuando se aproximaba la caída.
hemos llenado muchos de los vacíos que nos legaran.
a otros toca llenar los que nosotros dejamos.
apenas tuvimos tiempo para remendar la herencia.
¿em qué corazón irá nuestro corazón a depositarse?
¿a qué silbido irá nuestro silbo a renovarse?
nada sabemos,
cumplimos una jornada que empezó antes que nosotros
y que no concluirá con nosotros.

 

rei seely

nascido na cidade Gonaïves, reginaldo ou rei seely vive em curitiba, no brasil desde 2012. o escritor e poeta publicou em 2016 seu primeiro livro intitulado “radiografia refugiado feijoada e poesia sem folhas”.

 

 

para você, cabeça de vento

eu estou falando com você
você que não fez a história
eu venho de um país de pé
saqueado pelo galo e a águia
eu não sou nem cristão, nem católico
que causou a guerra de cem anos
nem a metrópole da religião capitalista
pregando resiliência, fabricando miséria

eu sou a mãe, mãe da liberdade
abandonada pela ignorância de desigualdade
e destruída pela casa grande
em um mundo implacável de dificuldade

eu tenho raízes humanistas da minha infância
sem compromisso e com coração
eu mostrei-lhe o caminho da razão
nós éramos inseparáveis na época

eu sei que minha vida é guerra
você aprecia a força de meus filhos
tratando-os bons trabalhadores como escravos
com trabalhos pesados por um salario de miséria

eu não sou nem a lixeira da américa
se você utilizar minha pobreza
para construir suas cidades de beleza
você é sanguessuga com sua ajuda humanitária!

filhos de povoamento privilegiados!
filhos de exploração marginalizados!
a história dos povos não é uma ficção
porque nós somos todos os produtos de importação.

 

fontes: jornada.unam; totem&pagu


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