poemas de ricardo henrique dos reis

ricardo henrique dos reis é escritor, ator, diretor e produtor de teatro. é formado em comunicação social pela faculdade cásper líbero e frequentou o curso livre de teatro do grupo tapa, entre 1992 e 1995. em 2008 fez extensão universitária em português instrumental pela puc-sp, em 2011 participou do curso “teoria e prática da peça didática de bertolt brecht” e em 2017 do curso “japão – pós 3.11”, ambos na pós-graduação da eca-usp. entre seus grandes mestres destacam-se: ingrid koudela, chico de assis e guilherme sant’anna. foi também professor de português para estrangeiros na faap-sp e de comunicação na pós-graduação da facab. abaixo, conheça alguns de seus poemas.

 

Se teu amor ainda está vivo
E tens coragem, mostra-o!
Declara-o agora!
Para que no dia a dia
A razão não te mate aos poucos
Já pensaste como seria estranho um amor morto?
Declarar-se numa lápide ou beijar fotos desbotadas?
Então não mates teu amor!
Não esperes que o tempo te encha de argumentos tolos
Para ter com que se desculpar
Pelo resto da vida
Declara-te!
Antes que a vida se ausente
Antes que a hora chegue
Guarda a razão para outras ocasiões
Para trabalhos acadêmicos
Ou para tribunais de justiça
Porque no amor não existe verdade
O amor é sentimento
E não há quem possa julgá-lo

 

NOÇÃO DE TEMPO I

Eu nunca vi o tempo
Nem sei se o tempo é algo que se possa ver ou que exista
Mas o sinto na pele, a me corroer a vida
Minha alma é como o tempo, sinto-a infinita
Mas assim como o tempo também ela há de se esvair com a vida
E o que sobrará, então? O tempo, sempre o tempo a expiar as vidas
A dizer a si mesmo “O dia é apenas uma fração de mim”
Eu nunca vi o tempo, mas posso respirá-lo
Como eu poderia conhecer o tempo
E como ele haveria de me perceber?
Pareço-me com o tempo? Só o tempo poderá dizer

 

TENHO SOMENTE NOITE E DIA

Tenho somente noite e dia
E nada me faltará, espero
Assim
Quando chegarem os dias de tua ausência, estarei pronto
Tão pronto quanto as flores do dia dos namorados
Que são entregues murchas
E desesperadamente são colocadas na água
Pra ver se duram algum momento de amor
Não precisaremos de flores, espero
Mas se algum dia eu lhe der flores
Deixe-as murchar, sem água
E observe como é curta a vida de um verdadeiro amor
Não precisaremos de flores, espero
Assim
Quando chegarem os secos dias de outono
Quando não teremos flores
Terei mais do que sempre imaginei
Porque tenho noite e dia

 

LÁPIDE

Há o tempo. Silencioso… Embora nada
diga, segurei-o, até que passou… Há o
tempo. Sem procedimento, que não
deixa dúvidas… Até que durou…

 

MEMÓRIA DOS ANJOS II

Meu Deus, outra vez sonhei com a morte
Sonhei que tinha meu corpo devorado
Por um verme sedento e esfomeado
Que a cada célula celebrava a sorte
Ó maldito, falso, ingrato e famélico!
Come sem pudor a carne dura de outrem
Quanto há pra devorar? Que gosto tem?
Até que finda o meu sabor angélico
Que nojo, que asco, que trabalho sujo
A morte revirando o meu latifúndio
A coisa feia, grossa, sobre a coisa bela
Oh, que estranha e ignóbil arte se revela
A podridão do mundo e a do homem
Em bocas e braços que me consomem

 

À DESPEDIDA AO TEATRO
(Para o ator Guilherme Sant’Anna)

Um dia, quis ser ator de teatro
E voar tão alto
Onde não se pode enxergar
Quis ser filho pródigo da arte
Quis subir ao palco
E subestimar o mundo
Como criança infame
A concepção pecadora de enlear tal arte
Me valeu sorrisos irônicos
De cruéis comediantes
Que se esquivam em virtudes ensaiadas
Hoje o teatro vaia minhas pretensões
E eu, tão pouco mudado
Tenho apenas altos os meus sonhos
Interpreto na vida o trágico sentido
Que exaspera o pensamento
No porvir que é motejante encalço do silêncio
E deixa tolas as vaidades incessantes
Para remediar meus costumes inconscientes
Ah! minh’alma teatral e desonesta…
Quer ser arte e não ser artista
Quer ser fonte e não ser nascente
Ah! minh’alma teatral e desonesta…
Já me priva de meu anseio
E padeço estupidamente
Numa cidade sem sonhos

Teatro Aliança Francesa, São Paulo

 

Eu me agito até a loucura
A loucura é o horror dos homens
A ação de pensamentos diabólicos
Primeiro o pensamento, depois a loucura
Em nome de Deus, basta!
Nada é pior que a loucura
Nossa própria sombra… desguarnecida
Um minuto sem juízo, um minuto reduzido a destroços
Basta! Basta!
Nada é pior que a loucura
E eu me pergunto:
― É você? É você? É você que se perdeu na loucura?
Oh, oh! Maldito pensamento
Quem carrega culpa não derrama lágrimas
Em minha vida não há nada para achar além da loucura
Pois bem, eis o nosso encontro
Embora tudo seja tensão e mistério
Nada, senhores
Nada é pior que a loucura

 

Abro o livro
FLIP, FLIP, FLIP…
Leio tudo
Palavra por palavra
Enquanto o entendimento consente
FLIP, FLIP, FLIP…
Mas quando as letras misturam-se
LFIP, PFLI, IPLF…
Abandono a leitura
Abandono tudo
E volto os olhos Paraty

 

Eu disse adeus aos meus amigos?
Não me lembro…
Lembro-me de ter saído…
Eu precisava de um pouco de ar
E de pensar um pouco por mim mesmo
Então parei algumas casas à frente
Eu estava fora de minha sanidade mental
Com aquele papo sobre política
E outras queixas como salário
E outras perdas como o meu tempo
Hoje em dia é tanta gente entendida de tudo
E tantos aplicativos
E tanta informação
Que não sobra tempo para mais nada
– Nem para pensar um pouco por si mesmo –
Foi quando me puxei novamente
Para dentro da festa
Não faz mal às vezes
Olvidar opiniões contrárias
Agora, sim
“Adeus a todos!”

você pode conhecer mais sobre o escritor através do e-mail: rhdosreis@gmail.com


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