poemas de sandro sussuarana

produtor cultural, sandro sussuarana é um dos idealizadores do sarau da onça. já participou do concurso literário valdeck almeida de jesus (2013); organizou e publicou as antologias poéticas “o diferencial da favela: poesias quebradas de quebrada” – sarau da onça (2014) e “a poesia cria asas” – grupo ágape (2013). abaixo, conheça alguns poemas do escritor.

 

 

A Vida sob Letras
Quando que eles acreditaram em nós?
Que escreveríamos a nossa história?
Nos tornaríamos nossos próprios heróis?
Que deixaríamos de acreditar
Em tudo que nos era imposto
E passaríamos a acreditar
Nas verdades estampadas
Em nossos rostos?
É, eu sei que eles não queriam
A gente escrevendo, falando
Deve ser mais foda ainda
Eles vendo os pretos tudo se formando!!
Indo no caminho inverso da alienação;
quebrando correntes, derrubando muros
E cada vez mais carregado de informação.
Que é pra eles entenderem
Que nem a choque, muito menos o Bope
vão impedir a nossa transformação
Porque já fomos mortos, caçados, jogados ao mar
Agora eles vão ter que engolir
“Nós” tudo equipado com conhecimento suficiente pra nossa história protagonizar.
porque já tamo cansado de todas essas apropriações
De branco querendo ser preto
Falando em nome dos preto
Mais só serve ser preto em algumas ocasiões.
Não serve por exemplo na entrevista de emprego
Quando eles não são desclassificados por conta de seus cabelos
Ou na hora de ir comprar e o vendedor simplesmente não te enxergar
Mas já tamo vacinado contra esse tipo de opressão
Que quer nos fazer pensar que no Brasil não existe discriminação
É com a literatura que eu faço o enfretamento
E se escrever tiver incomodando: eu só lamento
E como nunca tivemos apoio
Vamos continuar assim, sabendo que é verdadeiro olho no olho
Que é pra a gente tá sempre fortalecido
E lembrar que esse sistema racista que sempre foi nosso inimigo
Muito antes de Zumbi
Quando Akotirene era nossa Rainha
E eles já tentavam nos extinguir
Firmes, resistimos a todas essas truculências
Pra mostrar que além de Pretos e empoderados
Somos RESISTÊNCIA!

 

 

Negaram-me
Me manipularam o tempo todo

Me dizendo que as coisas que eu gostava não prestavam

Meu cabelo não prestava, minhas crenças não prestavam

Que os meus reis e rainhas não existiam

Me fizeram de escravo.

Definiram um padrão e eu estava à margem dele

Me negaram o direito de viver, ser livre

As minhas escolhas só eram aceitas se fossem as escolhas deles

Hoje, sem o efeito do veneno que foi injetado em minha mente

Vejo o quanto que é importante ser mais consciente

O quanto que a minha presença significa uma ameaça

Nunca fui aceito e por isso eu não aceito

Esse papo de que somos todos iguais

Pra mim sempre teve uma outra balança

Na hora da abordagem dos policias

Ser crespo sempre feriu os bons costumes

Por isso é mais que afirmação quando

Um preto seu crespo assume

É acima de tudo um ato político

Mostrar que não desistimos

E nunca, nunca estivemos satisfeitos com o padrão

Se o Black atrapalha, sempre foi essa a nossa condição

E entenda que eu sou lindo e não preciso de sua opinião

Com a minha família aprendi sobre a autoafirmação

Vim pra escurecer, porque tá muito claro

e falar em alto e bom som

que sou descendente de reis e rainhas

e não de escravos.

 

fonte: https://sandrosussuarana.wordpress.com/

Sandro Sussuarana

 

 

 

 


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