poemas de wilson alves-bezerra

o brasileiro wilson alves- bezerra é tradutor, escritor e professor. graduado em letras pela usp, e doutor em literatura comparada pela uerj, wilson alves escreveu alguns livros, entre eles: histórias zoófilas e outras atrocidades (edufscar/ oitava rima, 2013), e o pau do brasil (editora urutau, 2016). conheça alguns poemas do autor.

 

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a carta

 

Esta é uma carta pessoal.

Sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim.

Passei os quarto primeiros anos de governo como vice decorativo.

Democrata que sou, converso, sim senhora presidente, com a oposição.

Até o programa “Uma Ponte para o Futuro”, aplaudido pela  sociedade, cujas propostas poderiam ser utilizadas para recuperar a economia e resgatar a confiança foi tido como manobra desleal.

Finalmente, sei que a senhora não tem confiança em  mim, hoje, e não terá amanhã.
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vida de gado

 

Este pato representa a indignação das pessoas.
O povo brasileiro é um povo do bem.
O pato, com este olhar de paz, é a forma brasileira de protestar.
1

As ruas estão desertas, estão cheias de pessoas, as ruas estão cheias de policiais, as ruas estão cheias de selfies e de ais, de bombas e de hinos nacionais. A rua quer fazer uma linguagem, que ligue uma rua às outras; mas a rua sempre parece pouca, para a estrada aonde vai. As ruas, à queima- roupa, incendeiam a crina dos cavalos dos policiais; as ruas tiram fotos das ruas num espetáculo de se masturbar. As ruas escancaradas sorriem para os jornais. As passeatas não se movem, não se resolvem, e bebem os perfumes que deveriam cheirar. Eu enlouqueço no berço a mucama, que tem que me dar de mamar. Vomito ódio em suas tetas de macaca. Brasil, desempaca! Vai adiante, mais índios para queimar, mulatas para meter, pretas para trabalhar. A pátria não pode parar. Brasil vai adiante, pelas ruas cheirosas dos noticiários; ouvi nosso protesto: vamos acabar com todos, vamos colocar os lordes, os heróis, os bossas, no lugar destes pagodes funks raps de doer. Refundar a pátria sem os párias, cagar na boca da gentalha, e nunca mais um miserável vai nos afrontar. A riqueza para os ricos, em penicos, iguarias sem igual. Nas ruas que desejo, baderna já não vejo, só carros importados, por pobres, por cavalos puxados. Eu, visionário, declaro , depois de tantos anos de baderna, a escravidão vai nos salvar.
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Ibirapiranga, Ibirapitanga, Ibirapitá, Orabutã, Arabutã são todos nomes de índios de um pau que já não há, de índios que não há. Um índio não é da Índias, não é um índio. Quem quer um país aceita qualquer país e basta ter o nome de um pau? Um estrangeiro é o índio. À margem das cordialidades, um homem se ergue diante de uma mulher com suas pinturas e suas partes. Um índio é um homem é uma mulher com um rombudo não. O Pajé mastiga a seiva e está lívido; o pajé precisará de pajelança também; o cantor precisará de cantoria; a música que ele entoa precisará de outra música. Porque Exu acordou apavorado e prega a desobediência civil, para fazer caírem discursos e os traços da cara, e ninguém mais ser emasculado na terra com nome de árvore. Ibirapiranga, Ibirapitanga, Ibirapitá, Orabutá, Arabutã é tudo  nome desse pau cortado. Índio sitiado por estradas, acossado por palavras. Tem as pedras, tem as lanças, tem os venenos, tem as ervas. Correm cutias, cipós, lencinhos, tostões. Não são indiozinhos, indiozões, nem um nem dois nem dia. Exu falou tá amarrado e na maloca se armou um auê. Seu grito foi escutado


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