poemas de zéfere

josé roberto de andrade  féres, mais conhecido como zéfere, é poeta nascido em   ituiutaba, no triângulo mineiro, em 1980.  já publicou  o livro a coesia das coisas (7letras, 2006).  compõe letras de música, transita pela slampoetry, tudo em língua ludo-luso-francesa. é professor, transcriador, tradutor (frança/brasil).

todo amor é imoral
à moral que confesso,
pois, se amar, no final,
é irmanar-se à alma gêmea
– seja ela macha ou fêmea –,
todo amor é incesto,
todo amor é imoral,
todo amor é protesto.

todo amor é igual,
todo amor é emblema
de um amor fraternal,
de um amor entre almas
que – homo ou heterogêneas –
são irmãs, almas gêmeas:
todo amor é protesto
a favor do incesto.

seja o da alma pequena,
que se crê tão moral
quando dá seu aval
à moral mais ingênua,
seja o do réu confesso,
que se aceita imoral
na moral que o condena
– face ao seu próprio verso –,
todo amor é imoral
à moral que confesso,
pois, se amar, no final,
é irmanar-se à alma gêmea
– seja ela macha ou fêmea –,
todo amor é incesto,
todo amor é imoral,
todo amor é protesto.

[zefere – salvador – 15/04/2013] [caminhando sobre as ondas anti-feliciânicas]

 

[tanta mágoa]

tanta mágoa,
tanta mágoa,
tanta mágoa – e nenhuma
que nos queira deixar,
que evapore de vez…

se é que há mágoa que suma,
deixa sempre mais uma
pra tomar seu lugar

– ou mais duas … ou três…
(quatro… cinco… seis…)

tanta mágoa.

tanta mágoa a passar
por debaixo da ponte.
tantas poças de mágoa
estagnada, parada.

tanta mágoa – que inunda,
magoaceiro danado.
mágoa rasa ou profunda,
olhos rasos de mágoa.

tanta mágoa dormente
e moinhos de mágoa.
gente à beira damágoa,
mágoa que afoga a gente.

tantas doses, garrafas
da pior mágoa ardente.
tanta mágoa fervente
pro café da ressaca.

tantos baldes de mágoa,
mágoa fria, gelada.
tantos banhos de mágoa,
mágoa doce e salgada.

tanta mágoa encanada
a magoar tantas plantas.
magoas–‐vivas no mar,
e revoltas, e brandas.

tanta magoa–‐furtada,
mágoas das chuvaradas,
sujas, contaminadas,
a rolar na enxurrada.

são as mágoas de março
fechando o verão:
mais promessa de mágoa
no teu coração.

mágoas oxigenadas,
sanitárias, de rosas,
destiladas, gasosas,
bentas, mornas, tratadas.

tanta mágoa filtrada,
inodora, incolor,
sem contar, sem sabor,
– feito nem fosse mágoa…

e quem dera não fossem
senão mágoas passadas
tudo o que no passado
mágoa abaixo se foi.

mas a mágoa ‘inda passa
por debaixo da ponte
e ‘inda há poças de mágoa
estagnada, parada.

tanta mágoa,
tanta mágoa,
tanta mágoa – e nenhuma
que nos queira deixar,
que evapore de vez…

se é que há mágoa que suma,
deixa sempre mais uma
pra tomar seu lugar

ou mais duas… ou três…
(quatro… cinco… seis…)

[“tanta mágoa”–zéfere–salvador–30/05/2013}

o amor tal qual gangorra

quando a gente tá sozinho,
logo busca ũa companhia;
quando arruma algum casinho,
tá sozinho é o que queria.

só decora esse refrão
quem nasceu cabeça-oca,
quem, se pensa, é sem razão,
faz de vaca e vai com as ôtra:

quem tolera, feito tolo,
sua própria ignorância
vai morrer, sem um consolo,
com o rei que crê na pança.

quem, malgrado a tempestade,
passa arado em pensamento,
preparado pra mais tarde,
não semeia novo vento:

nada é dado nesta vida;
nesta vida, tudo é dados:
pra ganhar uma partida,
rola o dado bem rodado.

quando o jogo é ser feliz,
é melhor jogar a dois,
sem rival e sem juiz,
parceria, ora pois…:

o amor, tal qual gangorra,
sobe, desce, volta e vai,
faz pensar que a gente voa,
faz pensar que a gente cai.

mas, se um sobe e o outro desce,
um não cai nem o outro voa:
só assim o amor se tece,
só assim move a gangorra:

quando um bate o pé na chão,
o outro sobe, e não é à toa:
já projeta outra impulsão,
força pra que o amor não morra.

mas, se um dia um se cansa,
volta inerte pro refrão
de quem crê o rei na pança
e acha boa a ilusão

de que humano é só engano,
faca cega ou de dois gumes,
pisca-apaga sem ter plano,
coração de vagalume;

que, se a gente tá sozinho,
qué buscá ũa companhia;
e, se arruma algum casinho,
tá sozinho é o que queria;

e repete, feito um crente,
baboseira e ladainha
que repete toda a gente
como toca ũa campainha,

– é melhor deixar de lado
de querer prorrogação,
já que jogo mal jogado
não melhora no fim, não;

é melhor que o outro aceite
que tem gente que derrama
sempre, sempre, o mesmo leite:
chora, chora, e nunca mama…

 

trem de mente de corpo de trem

zéfere (in: a coesia das coisas)

o poeta é um fingidor.
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

fernando pessoa

meu corpo tem trilhos,
meu corpo tem trem,
meu corpo tem trecos
e vaga pra versos,
meu corpo os tem sem
ter corpo nenhum
nem coisa que-nem.

meu corpo tem corpos
que correm no corpo,
que é corpo sem corpo
— que é corpo de quem?

meu corpo é trilhos,
meu corpo é um trem!
que corre sem corpo
num corpo que é corpo
e mente também.

meu corpo é vagão
com vagas — mais cem —
pra corpo, pra corpos,
pra verso, pra treco,
pra trilhos, pra trem,
que corre com a mente
— e corre tão bem!

meu corpo é demente,
meu corpo desmente
que é corpo que mente
que mente que corre
— que mente tão bem
que mente até cem;

que mente até sem
mentir pra ninguém…
*
às vezes vai e vem
um verso viçoso,
sem trilho nem trem;
um verso arvoroso
de quem-sabe-quem…

nem deus vai saber,
porque tanto fez;
porque tanto faz
o menos ou o mais;
porquê nem talvez,
meu deus, deus não tem…

e o poeta é que-nem:
num verso, forçoso,
se perde também.
mas segue, colosso,
por mal ou por bem:

não seja, ou amém


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