poesias de alzira rufino

alzira rufino nasceu em santos na cidade de são paulo, brasil, em 06 de julho de 1949. de família negra e pobre, alzira é ialorixá, poeta e presidente da casa de cultura da mulher negra a ativista é fellow da ashoka, tendo coordenado a rede feminista latino-americana e do caribe contra a violência doméstica, sexual e racial, na sub-região brasil (de 1995 a 1998).

crioula

eu sou crioula decente
não sou vil
estou nas cordas
em equilíbrio

de um brasil
a minha cor apavora
essa raça agride ouvi dizer
não é nos dentes do negro
não é no sexo do negro
é na arte do negro
de viver
melhor dizendo

sobreviver
com essa coisa que arrasta
o tronco que tentam esconder
mas esses troncos existem

no conviver
os troncos estão nas favelas
vejo troncos nas vielas
nas moradias fedidas

nas peles sem esperança
nas enxurradas de não
no jogo das damas e reis
eu me perdi

nas rotas dos estiletes
nas celas e nos engodos
negro carretel de rolo
querem fazer um mundo
marginal crioulo.
femineira

baraculê
eu sou mulhé
baraculé
femineira
responde a lua
minha sei lá
diz que o sol é forte
mas vive no luá
da mulhé na rua.

disparidade

minha flor se traduz
menina
mulher

há duas coisas em mim
medo
coragem
que se acasalam
e me lançam
entre lagoas
de águas paradas
entre rios
que correm numa só direção

entre o mar que sofre
a mudança de quatro luas
entre a semana verde
e a seca
que amedronta
entre o fuso
horário das horas
que se adiantam
entre açoite e o berro
entre a fumaça e cruz
entre calçada e alcova
entre a bula e a homeopatia
minha loucura se traduz
entre a mulher e o homem
eu quero ser a metade
sensibilidade
a parteira não errou
quando em meus olhos olhou
canto choro disparidade

se esconde por quê criança?
caramujo não é verdade
pois nele só vence o sol
a lama esconde apaga
mangue floresce ninguém vê
talvez a lua entenda

deus, que é a liberdade?
entre a chuva o vento
guarda-chuvas são bobagens
não há termômetro, barômetro
para medir esta verdade
estouram porque não aguentam
o fogo da realidade.

em teu olho escuro

cesira na tarde
dor no sangue
com medo da noite
incomodas o povo
que não vê
em teu olho escuro
a íris do amanhecer

tiraste o ferrolho das grades
tiraste os pés do chão
cesira
perdida

um jeito de rosa

suas lutas pela preservação da vida
você síntese
sorriso nos olhos
um aperto de mãos

tecendo mensagens
ora com o grito ora como gemido
às vezes com o murmúrio das águas

nos movimentos
lutas feministas
diálogo apaixonado
passando a luta da mulher
entrelaçada emoção sensibilidade
transformações

como um caminho que renasce
em cada ato em cada luta
em cada noite sem sono

companheira
acordamos deste triste sonho
a procura de nascentes
mulheres e sementes

o sol cuidará fazendo brilhar
juntaremos nossas mãos outra vez
ficou de ti a essência da flor
para renascer outras vezes
e nos revelar de novo
o outro lado da raiz
rosas e suor de corpos

desafiando o escândalo de vida

poema para rosa gouveia da silva
companheira vitimada num
atentado terrorista
dia 25 de junho de 1986 – peru

minha solidariedade
tua minha poesia

liturgia

ave maria esquerda
ave maria da luta
ave maria que forma
que modela
o humano

eu sei que com essas palavras me dano
talvez suas metralhas me matem
suas salas me sufoquem
ave maria esquerda
ave maria de marcas
ave maria de lua
ave maria de sortes
ave maria de mortes
ave maria bandeiras
ave maira estrelas
cansados no anoitecer
ave maria da vida
perdida
brigando num sol amanhecer.


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