conceição evaristo

nascida em minas gerais, belo horizonte, conceição evaristo é poeta e prosadora brasileira. na década de 70 migrou para o rio de janeiro e graduou-se em letras. é mestre em literatura brasileira e doutora em literatura comparada. ela publicou os seguintes livros: becos da memória, poemas da  recordação e outros movimentos, ponciá vivencio, insubmissas lágrimas de mulheres, becos da memória. “a nossa escrevivência não pode ser lida como história “para ninar os da casa grande” e sim para incomodá-los em seus sonos injustos”.

 

a noite não adormece nos olhos das mulheres

a noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.

a noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.

a noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde ainás, nzingas, ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.

a noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.

vozes mulheres

a voz da minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida. a voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

a voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
a minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.

a voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
a voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato
o ontem – o hoje – o agora.
na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
apesar das acontecências do banzo
apesar das acontecências do banzo
há de nos restar a crença
na precisão de viver
e a sapiente leitura
das entre-falhas da linha-vida.

apesar de …
uma fé há de nos afiançar
de que, mesmo estando nós
entre rochas, não haverá pedra
a nos entupir o caminho.

das acontecências do banzo
a pesar sobre nós,
há de nos aprumar a coragem.
murros em ponta de faca (valem)
afiam os nossos desejos
neutralizando o corte da lâmina.

das acontecências do banzo
brotará em nós o abraço à vida
e seguiremos nossas rotas
de sal e mel
por entre salmos, axés e aleluias.

 

todas as manhãs

todas as manhãs acoito sonhos
e acalento entre a unha e a carne
uma agudíssima dor.

todas as manhãs tenho os punhos
sangrando e dormentes
tal é a minha lida cavando, cavando torrões de terra,
até lá, onde os homens enterram
a esperança roubada de outros homens.

todas as manhãs junto ao nascente dia
ouço a minha voz-banzo,
âncora dos navios de nossa memória.
e acredito, acredito sim
que os nossos sonhos protegidos
pelos lençóis da noite
ao se abrirem um a um
no varal de um novo tempo
escorrem as nossas lágrimas
fertilizando toda a terra
onde negras sementes resistem
reamanhecendo esperanças em nós.

 

para a menina

desmancho as tranças da menina
e os meus dedos tremem
medos nos caminhos
repartidos de seus cabelos.

lavo o corpo da menina
e as minhas mãos tropeçam
dores nas marcas-lembranças
de um chicote traiçoeiro.

visto a menina
e aos meus olhos
a cor de sua veste
insiste e se confunde
com o sangue que escorre
do corpo-solo de um povo.

sonho os dias da menina
e a vida surge grata descruzando as tranças
e a veste surge farta
justa e definida
e o sangue se estanca
passeando tranqüilo
na veia de novos caminhos,
esperança.

 

fonte:

nossaescrevivencia

revistamododeusar


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