trem de mente de corpo de trem, por zéfere

(Jo)Zé (Roberto Andrade) Fére(s), nasceu Ituiutaba, no triângulo mineiro, em 1980. Publicou o livro A coesia das coisas (7Letras, 2006). Compõe letras de música, transita pela slampoetry, tudo em língua ludo-luso-francesa (ou franco-ludo-lusitana (ou luso-franco-lúdica). É professor, transcriador, doutorando traduto(i)lógico (França/Brasil).

Assista ao vídeo da intervenção que o poeta fez durante a mostra Latitudes Poéticas da primeira edição do Festival Latitudes Latinas.

Meu corpo tem trilhos,
Meu corpo tem trem,
Meu corpo tem trecos
E vaga pra versos,
Meu corpo os tem sem
Ter corpo nenhum
Nem coisa que-nem.

Meu corpo tem corpos
Que correm no corpo,
Que é corpo sem corpo
— Que é corpo de quem?

Meu corpo é trilhos,
Meu corpo é um trem!
Que corre sem corpo
Num corpo que é corpo
E mente também.

Meu corpo é vagão
Com vagas — mais cem —
Pra corpo, pra corpos,
Pra verso, pra treco,
Pra trilhos, pra trem,
Que corre com a mente
— E corre tão bem!

Meu corpo é demente,
Meu corpo desmente
Que é corpo que mente
Que mente que corre
— Que mente tão bem
Que mente até cem;
Que mente até sem
Mentir pra ninguém…
*
Às vezes vai e vem
Um verso viçoso,
Sem trilho nem trem;
Um verso arvoroso
De quem-sabe-quem…

Nem Deus vai saber,
Porque tanto fez;
Porque tanto faz
O menos ou o mais;
Porquê nem talvez,
Meu Deus, Deus não tem…

E o poeta é que-nem:
Num verso, forçoso,
Se perde também.
Mas segue, colosso,
Por mal ou por bem:
Não seja, ou amém!

“TREM DE MENTE DE CORPO DE TREM” – Zéfere – do livro A coesia das coisas (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006)


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